Na véspera do golpe jurídico, togados ganham 80% de aumento, com efeitos cascata e retroativo — O jornaleiro

Originally posted on andradetalis: Não há crise. As burras do Estado continuam recheadas de dinheiro. O Senado aprovou nesta terça-feira (20) por 62 votos a zero projeto de lei que concede reajuste salarial escalonado para servidores do judiciário. O texto prevê que o aumento – entre 53% a 78,56% – será concedido de acordo com…

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A midiatização do processo penal

‘Os vazamentos e as prisões por tempo indeterminado e sem a culpabilidade comprovada dos réus tem criado um clima de instabilidade e até mesmo de terror’

Rennan Martins – Blog dos Desenvolvimentistas

O Juiz federal Sergio Moro (esquerda) e os procuradores federais Carlos Fernando dos Santos Lima (centro) e Deltan Dallagnol (direita). Montagem: O Jornal do Estado

Aproxima-se o retorno das atividades do Congresso Nacional e atrelado a isto temos a temperatura política voltando a subir. Com o processo de impedimento deflagrado, certamente o recesso serviu para amplas movimentações de organização das diversas forças políticas, muitas delas baseadas tão somente no fisiologismo característico do presidencialismo de coalizão.

Se é verdade que a ala conspiracionista ligada ao vice-presidente Michel Temer sofreu considerável desidratação, também procede a tese de que o governo continua sem enfrentar apropriadamente a apatia e hesitação de que padeceu durante todo o perdido ano de 2015.

Para analisar este cenário e fazer projeções que o Blog dos Desenvolvimentistas entrevistou Benedito Tadeu César, doutor em ciências sociais pela Unicamp e professor aposentado da UFRGS. Considera ele que a calmaria observada neste início de ano findará “tão logo se reiniciem os trabalhos legislativos”, que Eduardo Cunha não descansará nem abdicará de seus métodos pouco convencionais de fazer política, e que como resposta o Planalto “manterá a postura de inabilidade que o caracteriza”, sem, contudo, se materializarem as condições requeridas para a consumação do impeachment.

A análise mais extensa do professor, porém, se deteve no Judiciário. Tadeu César enxerga um “decisionismo” e “ativismo judiciais aliados a uma midiatização cada vez mais acentuada do processo penal” inaugurados pelo julgamento da Ação Penal 470, conhecida como Mensalão. Postula ainda que “os vazamentos e as prisões por tempo indeterminado e sem a culpabilidade comprovada dos réus tem criado um clima de instabilidade e, diria, até mesmo de terror”.

Confira a íntegra desta rica análise:

Como se inicia 2016 no campo da política? Qual a perspectiva de evolução da crise?

BTC: Até o reinício das atividades do Congresso Nacional o clima político continuará estável. Apenas as grandes corporações de mídia e segmentos do Ministério Público, da Polícia Federal e do Judiciário, notadamente alguns juízes de primeira instância, insistirão em manter o clima de conflagração com o governo federal e a caçada aos petistas e ao ex-presidente Lula da Silva. O governo Dilma Rousseff, por sua vez, manterá a postura de inabilidade que o caracteriza, criando novas frentes desnecessárias de conflito, como a recém instalada com a nova proposta de reforma da Previdência Social, que cria inimigos e alimenta desconfianças entre seus próprios aliados. O governo, ao que parece, desperdiçará o tempo da trégua não declarada com a Câmara Federal e não conseguirá consolidar novos e necessários apoios para enfrentar a carga pesada que se abaterá sobre ele tão logo se reiniciem os trabalhos legislativos.

O impeachment arrefeceu? Quais as chances do impedimento de Dilma se consumar?

BTC: Entendo que o impeachment, com as decisões do STF, perdeu força na Câmara Federal, mas isto não implica que, findo o recesso parlamentar, não sejam restabelecidas as práticas de chantagem e de confronto com o Poder Executivo. Eduardo Cunha, enquanto não for destituído e não tiver seu mandato de deputado federal cassado ou suspenso, continuará a utilizar seus aliados para criar embaraços ao governo Dilma Rousseff. Sem revelar a sua face, o PSDB continuará alimentando as posturas de Cunha e de sua trupe. Com a base parlamentar que detém, o governo Dilma continuará refém e submetido às práticas de chantagem. Sua única chance de romper este círculo de terror será conseguir reverter o quadro de estagnação econômica. Sem isto, o impeachment não virá, mas também não virá a paz tão necessária ao exercício do bom governo.

Quanto ao TSE. Você crê que a oposição partirá para a cassação da chapa caso não prospere o impeachment? Como a sociedade em geral enxerga essas movimentações?

BTC: O maior risco de destituição do governo Dilma Rousseff encontra-se hoje no TSE. Gilmar Mendes e Dias Toffoli, este agora encantado com a presidência do tribunal, formam uma dupla capaz de arrolar argumentos jurídicos suficientes para justificar quaisquer atos que considerem oportunos. A decisão da manutenção da democracia ou da deflagração de um golpe judiciário estará colocada nas mãos dos demais ministros do TSE. Espero que eles se comportem com a mesma dignidade assumida pelos ministros do STF no julgamento dos questionamentos apresentados pelo PC do B frente ao ritual do impeachment criado por Eduardo Cunha. O grande risco é o de que os ministros do TSE se deixem contaminar pelo processo de judicialização da política em curso no país e exerçam, também neste episódio, práticas decisionistas do quilate das que vêm sendo adotadas pelas altas cortes brasileiras desde o julgamento da Ação Penal 470.

A opinião pública, em sua grande maioria fortemente influenciada pelas grandes corporações de mídia brasileiras, não oporá resistência a uma decisão do TSE que leve à cassação da chapa Dilma Rousseff/Michel Temer. No entanto, acredito que mesmo os ministros do TSE mais propensos a assumir posturas decisionistas se sentirão constrangidos de enfrentar as críticas que partirão dos juristas e das mídias independentes, bem como dos setores sindicais e populares próximos do PT e favoráveis ao governo Dilma Rousseff. O argumento de que foram utilizados recursos ilícitos na campanha de Dilma/Temer e desconhecer que as mesmas empresas que financiaram sua campanha financiaram as campanhas de todos os demais candidatos soa falso até para os mais ferrenhos defensores de Aécio Neves ou de Marina Silva.

Não se pode esquecer, além disso, que o próprio Poder Judiciário, como instituição, está sofrendo um forte desgaste junto à opinião pública advindo das práticas corporativas que tem adotado sem nenhum mascaramento nos últimos meses, como as relativas ao pagamento dos auxílios-moradia, alimentação, educação e até creche/babá aos seus integrantes. Ainda que regiamente remunerados, muitos integrantes do Judiciário e do Ministério Público têm se revelado nus perante parte expressiva e crescente da opinião pública brasileira.

De que maneira se incidirão os efeitos da crise política e econômica nas eleições municipais deste ano?

BTC: As eleições municipais têm dinâmica própria, em grande parte independente das conjunturas política e econômica estaduais e nacionais. Os eleitores dos municípios votam com os olhos, o coração e a mente voltados para os problemas locais: a sua rua, as enchentes ou a seca, a coleta de lixo, a corrupção municipal, a amizade/proximidade com os candidatos.

Não há dúvida que os acontecimentos nacionais e estaduais têm influência, mas eles não são decisivos. Em um cenário de crise, a tendência, sempre, é a de que a situação seja prejudicada e, consequentemente, as oposições sejam beneficiadas, mas sempre serão a conjuntura local e as posturas dos candidatos locais que definirão o resultado eleitoral em cada localidade. Além disso, exceto o PSDB – que tem sido poupado pelas grandes corporações de mídia e pelas denúncias do MP, todos os demais partidos políticos brasileiros têm sido afetados pelas denúncias de corrupção, o que fará com que o peso do descrédito se dilua e se distribua entre todos os partidos e seus respectivos candidatos. Não acredito, entretanto, pelas razões expostas acima, nem que o PSDB tenha um desempenho muito superior ao que obteve nas eleições municipais anteriores, nem o PT, o mais atingido pelas críticas midiáticas e pelas denúncias, tenha um desempenho muito abaixo daquele que tem obtido historicamente.

Além da crise temos ainda a proibição do financiamento empresarial de campanhas já em vigor. O que esperar desta mudança tão representativa? Como fazer para inibir o caixa-dois?

BTC: A inibição do caixa-dois só será obtida por meio de rigorosa fiscalização por parte dos órgão competentes. Correm informações nos bastidores que empresários, políticos e dirigentes partidários, assessorados por profissionais do direito, têm realizado reuniões sigilosas para discutir fórmulas de burla da legislação anti-financiamento empresarial. Acredito, no entanto, que a fiscalização não será difícil de ser exercida, bastando que o Ministério Público eleitoral fique atento aos “sinais exteriores de riqueza” das campanhas. Campanhas com muita publicidade e/ou muita estrutura (carros, cabos-eleitorais etc.) serão potencialmente campanhas regadas por caixas-dois. Bastará vontade de fiscalizar e, claro, a alocação de recursos para a atuação dos agentes fiscalizadores, recursos que, no âmbito do Poder Judiciário são fartos e imunes às crises.

A proibição do financiamento eleitoral de campanhas é um passo importante para a moralização dos pleitos, com a inibição das compras de mandatos parlamentares e executivos por parte de empresários e empresas que vinham ocorrendo com intensidade crescente nos últimos anos no país. Este é um primeiro e importante passo, mas é apenas o início de uma longa caminhada de reformulação de nossa legislação política e eleitoral. Veja-se que, ao lado da proibição do financiamento eleitoral por parte de empresas, ocorreu também a diminuição do prazo de campanha. Se a primeira medida contribui para a moralização das eleições, a segunda reforça a possibilidade de que os atuais detentores de mandato se reelejam, pois um prazo menor de campanha dificulta a eleição de candidatos novos e, consequentemente, menos conhecidos que os já detentores de mandatos, que têm a sua disposição os recursos das casas legislativas e do controle das máquinas administrativas e, além disso, o acesso, durante todo o período de seus mandatos, às rádios e tvs públicas, sejam as culturas e educativas, sejam as da Câmara ou do Senado.

É possível sair da instabilidade em meio a delações, vazamentos e investigações continuadas? Como os políticos têm reagido a este cenário de protagonismo do judiciário?

BTC: Mais do que o “protagonismo do judiciário”, o que estamos assistindo é a exacerbação do decisionismo e do ativismo judiciais aliados a uma midiatização cada vez mais acentuada do processo penal. As normas do direito têm sido utilizadas, muitas vezes, de acordo com as convicções dos magistrados e demais agentes estatais do direito (promotores, delegados etc.) sem que estejam suficientemente embasadas nos princípios constitucionais ou na jurisprudência brasileira. A aplicação da tese do “domínio do fato”, no julgamento da Ação Penal 470, abriu as portas do voluntarismo jurídico. A Operação Lava-Jato, no combate necessário à corrupção mais do que secular e disseminada entre os principais partidos políticos e instâncias de poder no Brasil, tem se exercido, no entanto, de forma seletiva, elegendo alvos preferenciais e desprezando outros ao seu bel-prazer e de forma não transparente. O denuncismo, os vazamentos e as prisões por tempo indeterminado e sem a culpabilidade comprovada dos réus tem criado um clima de instabilidade e, diria, até mesmo de terror. Sob a ação das grandes corporações de mídia, de alguns magistrados e de alguns integrantes do Ministério Público todos os políticos não amigos são declarados culpados e corruptos, mesmo que haja provas em contrário. Os amigos, entretanto, mesmo quando alvo de denúncias, são poupados e, muitas vezes, previamente inocentados.

Acredito que cabe ao próprio Poder Judiciário e ao Ministério Público, por meio de seus agentes não contaminados pelo que está sendo caracterizado por alguns analistas como sendo o exercício de um “jacobinismo judiciário” agir de modo célere para recompor a normalidade jurídica no prazo mais curto possível. O combate à corrupção é bem-vindo, mas precisa ser realizado nos marcos estritos da lei e atingir de igual modo a todos os envolvidos nestas práticas nefastas. Cabe à sociedade civil organizada, por meio de suas agências, como a OAB, a CNBB, a UNE, as centrais sindicais e empresariais, os sindicatos, associações e às entidades estudantis e de juventude se manifestarem neste sentido.

É urgente, além disso, criar e fortalecer veículos alternativos de informação, tanto para que seja possível se promover contraposições às deturpações informativas realizadas pelas grandes corporações de mídia quanto, e igualmente importante, se acelerar a construção de um movimento de opinião pública favorável à regulação democrática da mídia, seja do seu exercício seja de sua propriedade. Regulação que, afirme-se e reafirme-se, existe em todos os países de democracia avançada no mundo, incluindo-se os EUA, a Inglaterra, a França e a Alemanha, entre outros.

Diante deste cenário, quais são as perspectivas de saída da crise? Que desfechos são possíveis?

BTC: Ainda que dificilmente o governo Dilma Rousseff seja interrompido antes do término do seu mandato, parece-me igualmente difícil que ele consiga se estabilizar a ponto de que os três anos de mandato que lhe restam transcorram sob relativa calmaria. As turbulências periódicas serão a marca característica deste mandato presidencial. Isto se deverá tanto à ação conjunta das oposições associadas, mesmo que informalmente, às grandes corporações de mídia e aos chamados “jacobinos judiciais” quanto também à inabilidade política-administrativa de Dilma Rousseff e de sua equipe de governo.

Como, entretanto, as oposições não detêm quadros e lideranças aptas para empolgar as grandes massas eleitorais e nem deram mostras, até aqui, de estarem habilitadas para formular propostas de governo capazes de promover a retomada do desenvolvimento do país, caso o governo Dilma consiga superar o quadro de estagnação econômica atual e dar início a um processo de retomada, mesmo que tímido do crescimento econômico, ele terá chance de se recompor frente a opinião pública e, quem sabe, tornar possível ao seu partido apresentar um candidato com chance de vitória na campanha eleitoral de 2018. Mais do que Aécio Neves, José Serra, Geraldo Alckmin, Marina Silva ou Michel Temer, os grandes adversários de 2018 serão as grandes corporações de mídia e os “jacobinos judiciais”.

Créditos da foto: O Juiz federal Sergio Moro (esquerda) e os procuradores federais Carlos Fernando dos Santos Lima (centro) e Deltan Dallagnol (direita). Montagem: O Jornal do Estado.

Fonte: http://www.patrialatina.com.br/

Mídia se alia a economistas na ‘cegueira institucional’ sobre a crise do capitalismo

Oito anos após o seu início, a crise global continua sem solução, aproxima-se de sua quarta onda de manifestação, mas o tema nem sequer é considerado pelas instituições multilaterais do planeta
por Marcio Pochmann*.

Segue impressionante o grau de subordinação ideológica dos analistas e comentaristas econômicos e da mídia em geral na produção e difusão de análises acerca do curso atual da mais grave crise do capitalismo desde a década de 1930. Oito anos após o seu início, a crise de dimensão global continua sem solução, aproximando-se para a sua quarta onda de manifestação e sem que o tema nem sequer seja considerado nas previsões das mais importantes instituições multilaterais do planeta.

Aliás, cegueira situacional – como a recentemente demonstrada peo FMI – se mostra imutável no tempo presente. Não foram capazes de prever a crise de global em 2008, muito menos as suas ondas subsequentes de manifestações. Agora, um relatório daquela instituição sobre o panorama mundial para os anos de 2016 e 2017 atribui a culpa pela péssima situação econômica mundial ao Brasil e à China, principalmente.

O grau de alienação não tem limite. Não se pode esquecer que a primeira onda da crise global se deu entre os anos de 2008 e 2009, tendo por origem a insolvência dos contratos habitacionais (subprime) dos Estados Unidos. Até hoje não houve correção significativas dos erros resultantes das políticas neoliberais de desregulamentação adotadas naquele país e que foram ocasionadoras da própria crise.

Abordagem nesse sentido pode ser vista, por exemplo, tanto no livro de M. Lewis (The Big Short, de 2010) como no filme de 2015 dirigido por A. McKay, A Grande Aposta (ou A Queda de Wall Street, em Portugal).

Apesar da gravidade dos fatos, praticamente nada de relevante mudou nas regras especulativas do capitalismo, assim como as denominadas agências de risco seguem vendendo avaliações de acordo com o perfil do comprador e, portanto, distante da realidade (seria o Brasil um péssimo comprador das chamadas avaliação de riscos por parte destas agências?).

Apesar de mais de oito milhões de trabalhadores estadunidenses terem sido desempregados, da queda significativa na renda salarial, do aumento da pobreza e da desigualdade e da quebra em série de empresas e bancos desde 2008, Wall Street continua a ser referenciada e dominante, inclusive na lógica partidária estadunidense. Depois a mídia submissa estranha quando o senador Bernie Sanders, o candidato socialista e opositor de Hillary Clinton no Partido Democrata, avança com discursos críticos a Wall Street.

Para além dos EUA, lembremos que a segunda onda de manifestações da crise global transcorreu nos anos de 2011 e 2012, na Europa, frente à exposição das finanças públicas degeneradas por ajudas aos setores privados combalidos, após estes últimos entesourarem recursos públicos recebidos, sem reaplicá-los na produção.

Por fim, a terceira onda, que envolve os Brics e vem desde 2015. Justamente eles, que adotaram políticas anticíclicas na expectativa de que a crise capitalista fosse de curta duração, conforme verificado na Rússia, China e Brasil.

No Brasil, a sequência da política econômica de apoio com recursos públicos “de pai para filho” não se mostrou suficiente para reanimar o paciente do setor privado, motivando-o ao investimento produtivo. Pelo contrário, a injeção de mais de 100 bilhões anuais de recursos públicos no setor privado alimentou mais a especulação nos mercados financeiros e à dependência à importação.

A partir da decisão do banco central dos Estados Unidos, de recentemente retomar a trajetória de elevação da taxa de juros, caminha-se para uma quarta onda de manifestação da crise de dimensão global. O acelerador dessa crise permanece sendo a enorme e crescente assimetria entre o ritmo dos ganhos do setor financeiro, sem contrapartida na economia real.

Os ativos financeiros não se constituem enquanto riqueza propriamente dita, sendo muito mais um acesso à riqueza real. Esta discrepância se mantém dialeticamente sob a grave ameaça de continuidade da própria trajetória do capitalismo neste início do século 21.

* Professor do Instituto de Economia e pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho, ambos da Universidade Estadual de Campinas.

Manual do perfeito midiota – Parte 4

Como se sabe, a condição de midiota assegura um “estar no mundo” menos sujeito a angústias, porque permite direcionar todas as culpas para o outro.

Do Brasileiros

Esta série de reflexões tem o propósito de tornar mais confortável a escolha que você, seguidor fiel e crente da mídia tradicional, fez durante o ano de 2015.

Como se sabe, a condição de midiota assegura um “estar no mundo” menos sujeito a angústias, porque permite direcionar todas as culpas para o outro, mesmo que identificado como uma entidade subjetiva, um partido ou a designação genérica de “os políticos”.

Portanto, é essencial que você conheça os riscos de deixar brotar sua consciência social, aquela que nasce da percepção da alteridade – “natureza ou condição do que é outro, distinto”.

Não vamos complicar as coisas lembrando o que disse Michel Foucault sobre esse “processo de subjetivação”, bem lembrado por Giorgio Agamben na sua conhecida obra Homo Sacer. Se você quiser arriscar uma olhadinha por trás dessa cortina, coloco um link no pé do texto e você vai direto à página 69.

Para resumir, o que se observa é que as classes médias urbanas, expostas à complexidade da vida contemporânea e pressionadas pela ideologia do consumo e do sucesso pessoal, tendem a emular os muito ricos, ou seja, a querer ser – por imitação – parte daqueles que compõem a elite.

A imprensa usa esse sentimento como plataforma para vender a ideia de que, para estar no topo da sociedade, você precisa se descolar dos outros, os “diferenciados” que ficam ao seu lado ou abaixo da sua faixa de renda.

É assim que a imprensa coopta os midiotas.

Para isso, trata de esconder alguns fatos.

Por exemplo, você viu na mídia hegemônica do Brasil, no Jornal Nacional, ou ouviu nos comentários do rádio, como os americanos muito ricos criaram um sistema para escapar do fisco e resguardar suas fortunas contra a crise que eles mesmos provocaram? Deixo também os links para duas reportagens especiais do New York Times sobre esse assunto.

Você também pode procurar os trabalhos da brasileira Grazielle David, especialista em orçamento público, que demonstra com números como os cidadãos mais ricos do Brasil sonegam anualmente mais de R$ 500 bilhões.

Você aderiu àquele abaixo-assinado que as mocinhas bonitinhas oferecem na frente da Fiesp, perto daquele pato inflado, contra a recriação da CPMF? Nunca se perguntou por que as entidades da indústria e do comércio, com ampla repercussão da mídia tradicional, vivem denunciando o aumento da carga tarifária e nunca – repito: NUNCA – se preocupam em contabilizar os bilhões sonegados?

Porque contam com a imprensa para convencer você a continuar pagando pelos realmente ricos.

Aí você passa a acreditar que o problema é que o governo gasta demais, principalmente com programas sociais – e vai para as ruas xingar e agredir quem, no fim das contas, defende os seus interesses.

Mas essa é a natureza do midiota: agir contra seus próprios interesses.

Está feliz assim? Então ignore estas provocações e que 2016 continue lhe proporcionando a cândida felicidade dos inocentes.

Para lerThe New York Times – 1 – e The NYTimes-2. Mais: Homo sacer.

Para verEvasão fiscal – vídeo.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://brasileiros.com.br/

Manual do perfeito midiota – 3

A mídia tradicional, na qual você acredita religiosamente, não está a serviço da classe média tradicional, aquela casta que antigamente era chamada de burguesia.
Do Brasileiro

O ano está terminando e você certamente está odiando não poder jantar naquele restaurante em Nova York onde um lugar à mesa não sai por menos de 300 dólares.

Você leu na imprensa brasileira que esse é o melhor programa para comemorar a passagem do ano. Mas não vai dar, não é? E a culpa, claro, é daqueles que fizeram disparar o dólar e elevaram os juros, de modo que, por mais que tenha ralado para cumprir as metas, o custo desse sonho é muito alto.

Isso faz com que você odeie ainda mais esses comunistas que afundaram o Brasil, não é mesmo? Porque você está convencido, pela leitura dos jornais e da maioria das revistas de informação, de que o Brasil afundou.

Mas não era essa mesma imprensa que pedia incessantemente, desde 2013, que os juros fossem elevados para melhorar o desempenho do mercado de ações e que o câmbio pudesse flutuar livremente ao sabor do mercado?

Você não recebia os boletins daquela corretora cuja economista-chefe pontificava quase diariamente no rádio, na TV e em colunas de jornais, exigindo a mudança do modelo econômico?

Ela anda meio sumida, e provavelmente vai estar naquele restaurante que você queria conhecer. Gastando o bônus que ganhou ao apostar contra o Brasil.

Irônico, não é?

Pois é assim que funciona: a mídia tradicional manipula seus sonhos de consumo e ao mesmo tempo faz você acreditar que, se eles ficam fora do seu alcance, a culpa não é sua. É do governo.

Parece meio esquizofrênico?

É pura esquizofrenia: ao mesmo tempo em que prega a precedência do interesse privado sobre a ideia de nação, a imprensa hegemônica vende o paraíso da individualidade, fazendo você acreditar que pertence a uma casta que merece tudo.

Você quer estar naquele bar que a revista Veja listou entre os melhores da cidade, mas detesta aglomerações?

É o mesmo mecanismo mental que faz você adorar a chegada de novidades ao mercado nacional, mas ao mesmo tempo odeia que outras pessoas tenham acesso a esses bens e serviços. Ninguém contou que isso só é possível porque o mercado nacional se ampliou, se diversificou e alcançou escala suficiente para oferecer essas novidades.

Agora que algumas turbulências complicam um pouco mais sua vida, a culpa é do Estado e de seu gestor, o governo.

Sinto muito, mas não dá para encarar essas contradições sem deslocar você da zona de conforto proporcionada pela condição de midiota.

A mídia tradicional, na qual você acredita religiosamente, não está a serviço da classe média tradicional, aquela casta que antigamente era chamada de burguesia. Ela usa a burguesia para atender aos interesses de uma minoria que fica um pouco acima no andaime social. Como sempre, o cidadão comum funciona como massa de manobra, porque o sistema da mídia o faz suspirar pelo andar de cima e desprezar seus próprios pares.

Parece pouco democrático? Na verdade, como lembra o crítico de mídia Jeff Cohen, a imprensa deveria atuar como o sistema nervoso de uma democracia. Quando ela é dominada por atores que não estão preocupados com essa questão essencial, a democracia deixa de funcionar.

O modelo mais escrachado dessa imprensa inimiga da democracia é o império do australiano Rupert Murdoch. Há vinte anos, os principais grupos de comunicação da América Latina denunciavam Murdoch como um aventureiro que ameaçava a liberdade de imprensa. Hoje, o modelo Murdoch é praticado por nove entre dez dos veículos de maior audiência em todo o continente.

Você é refém desse sistema.

Para preservar a condição de midiota, que defende sua cabecinha da angústia de pensar, convém desenvolver a síndrome de Estocolmo, ou seja, é preciso amar quem sequestrou a sua mente.

Por exemplo, se você assistiu aquela cena em que meia dúzia de insensatos interpela na rua o cantor Chico Buarque e sentiu um pouco de vergonha alheia, cuidado: sua consciência está traindo seus interesses.

Mas se você imagina que, se estivesse lá, teria aderido ao coro da grosseria, fique tranquilo: você está próximo de alcançar a condição do perfeito midiota.

Para ver: Outfoxed – documentário completo.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://brasileiros.com.br/

Manual do perfeito midiota – 2

Não se esforce muito nos próximos dias: o PMDB está dividido, o vice-presidente Michel Temer se colocou numa situação institucionalmente insustentável e os apoiadores da atual presidente mostraram que uma eventual ruptura da ordem democrática não será recebida com flores ou balões de gás.

Por

Do Brasileiros

Nesta nossa série de serviço público, seguimos oferecendo subsídios para que você, cidadão ou cidadã sob a influência do ecossistema da mídia, possa desenvolver os recursos necessários para enfrentar a complexa diversidade do País onde vivemos.

Como você deve ter notado, nos últimos anos o grande conclave social do Brasil ganhou novas vozes, de pessoas que costumavam passar o dia na área de serviço, usavam elevadores lá no fundo do corredor e tinham o fabuloso poder de permanecer invisíveis quando você não precisava deles.

Esse fenômeno, que emancipou milhões desses indivíduos e até colocou seus filhos em faculdades, chama-se mobilidade social.

Não se preocupe: o Brasil nunca tinha visto isso acontecer; portanto, você não é um imbecil por ignorar sua existência.

Também não estamos aqui tratando da sua capacidade intelectual: nosso objetivo é cuidar para que você assegure sua condição de midiota, que oferece uma visão de mundo mais curta, radical, sem sutilezas e, portanto, menos sujeita a angústias.

Por exemplo: se você é do tipo que acredita que “o filho do Lula é dono da Friboi” ou que “Lula comprou a Rede Globo”, está no bom caminho – pois mesmo com as grandes exigências de compliance, entende que o filho do ex-presidente possa ter se tornado acionista majoritário de uma das maiores empresas do mundo sem que ninguém se desse conta. Se você não sabe, compliance é um sistema legal de controle empresarial que, entre outras coisas, impede a ocultação de capital. Serve, por exemplo, para prevenir conflitos de interesse e evitar que grupos terroristas ou criminosos se apossem de grandes recursos financeiros.

Não se preocupe: recentemente, uma senhora de minhas relações jurou que Lula é dono de metade do Brasil, inclusive de uma fazenda que pertence ao Instituto de Agronomia Luiz de Queiroz, e que obteve tudo isso com negócios “no fio do bigode”.

Ainda não descobri como se faz negócios assim e de que maneira alguém que não tenha bigodes poderia se incluir nesse tipo de capitalismo, por isso entendo de enquadrar essa senhora no grupo dos midiotas.

Você não precisa chegar a esse extremo para assegurar sua candura. Na semana que está terminando, você teve muitas oportunidades para alimentar a midiotice.

Analise, por exemplo, a pesquisa Datafolha publicada no domingo (13/12) e repetida por todos os meios da imprensa hegemônica. Dizia a manchete: “Após 13 anos de PT, 68% não veem melhora de vida”.

Se você, imprudentemente, seguiu lendo, ficou sabendo que nesse período, a renda dos mais pobres subiu 129% e os 10% mais ricos tiveram um acréscimo de 32% em seus ganhos. Mas não siga adiante: você vai concluir que a Folha distorceu sua própria pesquisa e mentiu descaradamente na manchete.

Você ainda pode dizer, em defesa de seu direito à midiotice, que a pesquisa fala de percepção, não dos números reais da mobilidade social ocorrida no Brasil, mas para isso você teria que admitir que houve esse resgate dos mais pobres. Melhor não.

O fato que os editores do jornal não podem omitir é que a percepção da realidade presente é sempre menos favorável do que a visão que se tem do passado, ou seja, a maioria das pessoas tende a achar que o presente é sempre pior. Isso não é novidade, e o diretor da Folha, sendo filósofo, deve conhecer o texto de Immanuel Kant (1724-1804) ao refletir sobre “A religião dentro dos limites da simples razão”: “que o mundo vai de mal a pior é uma queixa tão velha como a História, ou como a velha arte poética, tão velha quanto a mais velha entre todas as poesias, a religião dos sacerdotes”.

Os jornalistas desonestos sempre contarão com alguma razão na crítica do mundo, quando desejarem distorcer a percepção de uma circunstância política ou econômica, porque a tendência natural do ser humano é achar que o hoje é pior que o ontem.

Os jornalistas interessados em interpretar corretamente a realidade sabem que, numa circunstância adversa, ou seja, com o atual governo sob o bombardeio incessante da chamada mídia tradicional, um grande número de pessoas tende a dissimular eventuais opiniões favoráveis a ele. Por exemplo, boa parte dos 42% que declararam aos pesquisadores que a situação do Brasil continuou igual ao que era antes do governo Lula devem ser considerados mais próximos dos que acham que a situação melhorou do que daqueles 26% que consideram o contrário.

Portanto, o que a pesquisa mostra é que, mesmo sob o ataque constante e desonesto da imprensa hegemônica, o número de brasileiros que reconhecem a melhoria recente na qualidade de vida é muito maior do que os 26% que puxam a opinião pública para baixo.

Mas como nosso propósito aqui é garantir que você siga acreditando na mídia tradicional, fique com a manchete e ignore as malandragens dos editores.

Tentemos outro tema da semana: a condenação, em primeira instância, do ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, apontado como o criador do esquema que ficou conhecido como “mensalão”. Você não estranhou o fato de que Azeredo não foi incomodado pela Polícia Federal e pode esperar o julgamento de recurso em liberdade, enquanto outros personagens seguem presos, mesmo sem condenação e que alguns deles são acusados apenas de “pensar em cometer crime de corrupção?”

Poderíamos também analisar o noticiário sobre o processo de impeachment da presidente da República e a ridícula tentativa da Polícia Militar de São Paulo de reduzir a 10% o total de pessoas que foram à manifestação contra a tentativa de golpe contra as urnas, mas isso pode fazer você pensar demais.

Não se esforce muito nos próximos dias: o PMDB está dividido, o vice-presidente Michel Temer se colocou numa situação institucionalmente insustentável e os apoiadores da atual presidente mostraram que uma eventual ruptura da ordem democrática não será recebida com flores ou balões de gás.

Nesse ínterim, recomendo a leitura intensiva da revista Veja. Ou a Época. Ouça a rádio Jovem Pan. Assista ao Jornal Nacional. Isso vai apaziguar seu espírito.

Não reflita muito sobre as contradições aqui apontadas, pois se sair por aí questionando a credibilidade da imprensa hegemônica, correrá o risco de se colocar acima das exigências para ser considerado um perfeito midiota.

Como é costume, vou colocar no pé do texto uma referência bibliográfica, mas fique advertido de que você pode sofrer efeitos colaterais com essa leitura. Trata-se de um livro intitulado “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich, escrito em 1946 e publicado em 1947. Fala de pessoas com o perfil do midiota, o homem e a mulher comuns, aqueles indivíduos que formam a massa descrita por Elias Canetti e que constituem o sonho de consumo de todo candidato a tirano.

Destaco alguns frases: “Zé Ninguém, tu estás sempre do lado dos opressores”. (…) “Tu não acreditas no progresso social”, (…) “mas sobre o que se escreve nos jornais tu acreditas, quer percebas, quer não”.

Esse tal de Reich conseguiu ser desprezado pela esquerda e amaldiçoado pela direita. Fugiu do nazismo na Alemanha e morreu numa prisão dos Estados Unidos. Portanto, era um homem perigosíssimo.

Então, cuidado ao ler esse texto. Você corre o risco de perder a condição de midiota e talvez venha a precisar de um programa tipo bolsa miséria intelectual.

Para ler: “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://brasileiros.com.br/

Manual do perfeito midiota – Parte 1

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

O mundo de repente se tornou muito complexo? Não se preocupe: a maneira menos dolorosa de lidar com a complexidade da existência e com aquela angústia que ela provoca é assumir a condição de midiota. Portanto, é preciso verificar se você se classifica no rol dessas pessoas afortunadas para as quais o mundo é branco ou preto.

Seria maldade perguntar se você leu o livro originalmente intitulado “Being There”, publicado em 1970 pelo escritor Jerzy Kosinski. No ano seguinte, saiu uma edição brasileira que recebeu como título “O Videota”, o que facilita as coisas. Mas, para evitar o sacrifício de ter que ler um livro inteiro, informo que a versão cinematográfica pode ser baixada ou assistida online (dublada, para facilitar), no youtube ou vimeo.com. Busque pelo título: “Muito além do jardim”.

Em resumo, trata da história de um indivíduo maduro, órfão desde o nascimento, que passou a vida cuidando do jardim do homem que o acolheu. Nunca foi à escola, não aprendeu a ler ou escrever. Tudo que sabia era o que havia visto na televisão do seu quarto.

Um dia, o dono da casa morre e ele tem que sair para o mundo. O que se segue chama-se ironia: numa sociedade muito mais complexa do que o jardim que era seu universo, as opiniões simples e reducionistas que ele havia formado ao longo dessa existência alienada soam como explosões de sabedoria. Assim, ele vai subindo na escala social à base de metáforas absolutamente primárias sobre jardinagem e programas televisivos.

Alguma relação com as opiniões que você colhe na imprensa sobre política brasileira, economia e, principalmente, sobre corrupção?

Se a resposta for positiva, você tem grande chance de se identificar como um midiota. Aliás, no romance de Kosinski e no filme, o “videota” chama-se Chance, nome que em inglês, francês ou português pode ser traduzido como “oportunidade”.

Aqui está, portanto, sua chance de reduzir a angústia de viver numa sociedade onde a ascensão social de milhões de pessoas que viviam na pobreza produziu um alto grau de complexidade. Vamos combinar: a vida era muito mais simples quando a empregada usava o elevador de serviço, andava de ônibus, não precisava de férias e conhecia o seu lugar. E a gente nem precisava registrar o emprego dela. Quebrava um vaso, podia trocar o vaso e a empregada, sem maiores danos.

Também sabemos, você e eu, que esse negócio de preto, mulato, aquele povo do norte, fazendo compra no mesmo supermercado, comprando a mesma coisa que a gente, causa um certo desconforto. Esse mal-estar aumenta muito quando os encontramos na fila do aeroporto, ou a bordo daquele navio de cruzeiro, certo?

Tudo isso é causa de angústia e isso é compreensível: você não teve a chance de se preparar para essa mistura, porque passou a vida entre a mídia conservadora e o jardim do lar burguês.

A boa notícia é que você pode reduzir esse sofrimento simplesmente assumindo sua condição de midiota.

O diagnóstico é simples e pode ser feito por você mesmo. Por exemplo, você leu nos jornais que o desemprego de março superou o de fevereiro, e saiu por aí dizendo que o Brasil está à beira do abismo. Nem se pergunta quantos dias úteis tem fevereiro, se esse é um mês em que as pessoas esperam arrumar emprego etc.

Se você assumiu que o Brasil foi para a cucuia, parabéns: você é um midiota quase perfeito.

Mas se você tem um resquício de senso crítico e questiona se esse tipo de indicador é duvidoso, ainda pode comparar o desemprego do primeiro semestre deste ano com o do ano anterior. Pode chegar à mesma conclusão, ou seja, de que o Brasil foi pelo ralo.

No entanto, se passar pela sua cabeça que 2014 foi ano de Copa do Mundo e, portanto, muitos indicadores econômicos ficaram fora da curva, sinto muito: você está deixando o confortável mundo dos midiotas.

Veja bem: não se trata de ler ou não os jornais e as revistas semanais de informação que dominam o mercado, ou de assistir os telejornais todas as noites. Ser um midiota é uma questão de postura – você precisa receber esse noticiário pelo preço de face, ou seja, tem que absorver a mensagem sem aplicar sobre ela qualquer questionamento.

Não pode considerar, por exemplo, que um ano inteiro de noticiário negativo, apocalítico, acaba produzindo o que anuncia, porque afeta o ânimo de investidores, de empresários e dos trabalhadores.

Outra chance de fazer o diagnóstico: você vibrou com a manobra do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para levar a votação a proposta do impeachment da presidente da República? Não se importou com a hipótese de que o solerte parlamentar pudesse estar desviando sua atenção das acusações que pesam sobre ele?

Depois disso, você passou a achar que o vice-presidente Michel Temer é um homem de muitas luzes, porque quase oficializou o rompimento do PMDB com a aliança governista, testando a perspectiva do impeachment?

Se a resposta for positiva em ambos os casos, você está no caminho da libertação: mais um pouco e será dispensado de emitir opiniões inteligentes sobre qualquer coisa.

Mas, se passar pela sua cabeça que até o advogado que assina o pedido de impeachment sabe que dificilmente o Supremo Tribunal Federal iria concordar com a quebra da ordem constitucional se não houve – como não há – denúncia de crime administrativo contra a presidente da República, sinto muito: ainda falta um bocado para você se considerar um perfeito midiota.

Como se vê, o Brasil se tornou muito complexo.

Mas não perca a esperança: continue lendo diariamente os principais jornais do País, não se esqueça de olhar as manchetes nas bancas, e não deixe de assistir aos telejornais e aqueles comentaristas cheio de sabedoria sobre tudo.

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

Para ver: Muito além do jardim, dublado

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://jornalggn.com.br/

Mídia e golpe branco

Por Marcus Ianoni

Na tentativa de golpe branco em curso no país, o papel de liderança da grande mídia salta aos olhos. O termo grande mídia diz respeito ao reduzido número de poderosas corporações de imprensa que controlam os meios de comunicação, em desacordo com determinações da Constituição de 1988 (carentes de regulamentação), que proíbem monopólio ou oligopólio nesse setor. Algumas dessas corporações – proprietárias, simultaneamente, de redes de televisão aberta e fechada, emissoras de rádio (AM/FM), jornais, revistas e portais na Internet- lideram, na esfera sociopolítica, sobretudo desde o início da Operação Lava Jato, uma campanha de oposição ao governo federal, que tem funcionado como alavanca-chave de poder do movimento de deposição da presidente Dilma Roussef, por impeachment ou renúncia.

Essa campanha da grande mídia articula-se com forças partidárias e do Congresso Nacional, procurando fornecer legitimidade às ações da frente institucional da coalizão do golpe branco, os políticos de oposição, o movimento parlamentar pró-impeachment. A crise política está evidenciando como nunca o quanto a concentração da propriedade da mídia compromete a igualdade política como fundamento da democracia. No limite, é a disputa pela opinião pública entre quem tem ou não voz, mesmo sabendo que o governo, formalmente, não é mudo. As corporações midiáticas e seus aliados estão promovendo uma campanha desigual contra um partido político e suas lideranças, cuja síntese é o movimento para tentar derrubar uma presidente da República eleita a menos de um ano sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade. Isso tudo é tão danoso à igualdade política democrática quanto o financiamento empresarial das eleições. Uma outra regulação da comunicação política é fundamental para a democracia brasileira evoluir.

A grande mídia tem feito a cobertura da corrupção através de um sensacionalismo seletivo e partidarizado, praticamente sem discutir suas causas. Ela se omite, por exemplo, sobre a questão do financiamento empresarial de campanhas eleitorais (só muito recentemente abolido da legislação). Não discute a relação entre desigualdade política e captura do Estado pelo interesse econômico das grandes corporações, sendo o financiamento empresarial da política um meio de produção da síntese das duas primeiras variáveis e, assim, elo para a corrupção ativa e passiva. Motivo da omissão: é preciso manter a política como uma espécie de escrava a ser perversamente usada e maltratada pelo senhor, o poder econômico. Motivo do sensacionalismo: corrupção é escândalo, gera audiência, atrai anunciantes, vende jornal. Motivo do partidarismo: um partido de esquerda, que promoveu mudanças sociais importantes em um dos países mais desiguais do mundo, não interessa à coalizão neoliberal, do rentismo e da financeirização, à qual a grande mídia se vincula. Combater a pobreza e, se possível, a desigualdade social, tem custos que os supostos defensores da sociedade meritocrática não querem bancar. A ideologia liberal informa a grande mídia em relação a temas como inflação, juros, orçamento público, Estado, políticas sociais e segurança pública. Por outro lado, corrupção é um mal a ser universalmente combatido, doa a quem doer, mas a mídia tem abordado o problema com a velha máxima: aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei. Para Eduardo Cunha e suas contas milionárias na Suíça, com recursos provenientes de desvios na Petrobras, tolerância. Para o mensalão e trensalão tucanos, tolerância também. E por aí vai.

A pesquisa semanal do Manchetômetro evidencia a cobertura negativa que a mídia tem feito de Dilma desde 2014. Há inúmeras evidências, algumas de grandes proporções, de que se trata de um viés antipetista da grande mídia, pois ocorreu discriminação contra Lula também nas três campanhas presidenciais em que ele foi derrotado, 1989, 1994 e 1998, ou seja, quando, até então, o PT não havia se envolvido em problemas de corrupção. Em 1989, a Rede Globo, por exemplo, na reta final do segundo turno, em contexto de acirrada disputa entre Collor e Lula, tomou partido ainda mais incisivo a favor do primeiro, conforme assumiu em 2011 o ex-executivo da emissora, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho. Em 1994, a mesma emissora, que, sob pretexto de apoiar o Plano Real, apoiava, na verdade, o candidato FHC, envolveu-se no escândalo da antena parabólica, com o ministro da Fazenda. Em 1998, o Manchetômetro mostra que a cobertura dos jornais na corrida presidencial apresentou mais conteúdos contrários a Lula, então candidato de oposição, que a FHC, candidato à reeleição. Em 2010, pode-se destacar o episódio da bolinha de papel arremessada na cabeça do candidato José Serra, que disputava com Dilma Roussef, durante um evento de campanha no Rio de Janeiro, em local escolhido criteriosamente pelos autores do espetáculo farsante. O Jornal Nacional noticiou que Serra teria sido agredido por um objeto contundente atirado por militantes petistas e, devido a isso, precisou fazer exames médicos em um hospital. A armação foi desmascarada. O fato inspirou um grupo de sambistas cariocas, liderados por Tantinho da Mangueira, a comporem o hilário Samba da Bolinha de Papel. Em 2014, às vésperas do segundo turno, a revista Veja antecipou a publicação de sua edição semanal e estampou na capa, exibida também nas redes de televisão, fotos de Lula e Dilma com a seguinte manchete, escrita em vermelho: “Eles sabiam de tudo”. O objetivo era vincular Dilma e Lula ao escândalo político-midiático que tem sido a cobertura da Operação Lava Jato pelas corporações da radiodifusão e imprensa.

A campanha oposicionista da mídia não é contra a corrupção, é contra uma agremiação partidária de esquerda. A recente cobertura da apreciação das contas da União pelo TCU não dizia respeito a problema de corrupção, mas às chamadas “pedaladas fiscais”. No entanto, um arranjo de comunicação política foi montado, com a colaboração de um politizado TCU, visando fazer da divulgação do esperado resultado desfavorável à presidente da República mais um gol espetacular da coalizão da deposição a ser exibido nacionalmente para a audiência, em horário nobre. Desde a campanha eleitoral de 2014, que acabou resultando na quarta vitória consecutiva de presidentes petistas, a pressão oposicionista, sectária e golpista da mídia têm aumentado e não só servido de suporte organizativo para contestações de rua e panelaços, como também, indiretamente, para as manifestações de intolerância e ódio que estão ocorrendo no país contra políticos petistas, lideranças de movimentos sociais, intelectuais e eleitores do PT em geral. Trata-se de uma campanha contra a esquerda enquanto ideologia social e política e organização. Fanáticos, por assim dizer, falam em chavismo e bolivarianismo, chavões vocalizados na mídia oposicionista, como se fossem heresias e associam o petismo a elas. Referem-se a Cuba, onde empreiteiras brasileiras fizeram obras de infraestrutura, como se fosse a pátria do anticristo. Obama que se cuide desses brasileiros, após ter restabelecido relações diplomáticas com a Ilha!

Salvo raras exceções, os meios de comunicação oligopolizados atacam, direta e subliminarmente, a política e o Estado, deixando implícito que o mundo da virtude é o mercado. Mas o fato é que, na esfera das relações econômicas em mercados competitivos, as corporações, nacionais e internacionais, envolvem-se, corriqueiramente, em ilicitudes de inúmeros tipos, fraudes contábeis, manipulação de licitações públicas, cartéis, espionagem industrial, concorrência desleal, sonegação fiscal etc. A Operação Zelotes, de fraudes com dívida tributária envolvendo burocracia pública e grandes empresas, investiga irregularidades que somam quase 20 bilhões de reais, mas os telespectadores pouco sabem sobre ela. O que isso tudo tem a ver com o golpe branco midiático? Quem endeusa o mercado, sobretudo estando em um país em desenvolvimento e profundamente desigual, demoniza as forças que defendem políticas de desmercantilização, mesmo que em todo o mundo capitalista desenvolvido elas tenham sido implementadas. Essas políticas também existem no Brasil, mas os neoliberais resistem à sua expansão. Quem endeusa o mercado cobiça uma companhia mista do porte da Petrobras, acha um bom negócio comprá-la ou vendê-la, ou, ao menos, que ela não exerça a função de operadora única do pré-sal. Quem endeusa o mercado não se preocupa com política industrial, não tem simpatia por bancos de desenvolvimento como o BNDES, não quer investir em política externa independente, Mercosul, Brics etc. Na grande mídia, a cobertura econômica tira o chapéu para os mercados desregulados. As políticas desenvolvimentistas e sociais implementadas, com resultados positivos e negativos, por Lula e Dilma, provocam visível repulsa nos porta-vozes dos mercados, o oligopólio da radiodifusão e imprensa. Não à toa, emergiu em estratos das camadas médias tradicionais uma crítica vulgar, por exemplo, ao programa Bolsa Família.

Recentemente, o jornalista Ignacio Ramonet, do Le Monde Diplomatique, afirmou o seguinte, referindo-se à América do Sul: “Nos últimos 15 anos, todos os governos progressistas que chegaram ao poder democraticamente na região vêm sendo mantidos por via eleitoral. Nenhum deles foi derrotado nas urnas. Por isso, a resistência à mudança vem sendo cada vez mais brutal, apelando para novos tipos de golpes, alguns com fachada judicial, parlamentar, e sempre com forte ajuda da mídia”. Dois exemplos de golpe branco são a Venezuela, em 2002, e o Paraguai, em 2012. O primeiro caso foi, inclusive, caracterizado de golpe midiático, embora tenha fracassado. O assédio moral da mídia ao PT se dá de várias maneiras: pelas críticas às políticas de seus governos e aos problemas de corrupção, pelo modo de divulgação e precário nível de esclarecimento de procedimentos de instituições de controle externo que podem ser prejudiciais ao governo petista, como ocorreu na semana passada no TCU, pelas manipulações políticas, algumas acima mencionadas etc. A mídia está meramente exercendo a imprescindível liberdade de imprensa ou, sob esse guarda-sol, também a liberdade de empresa interessada e o papel de partido político? Então, é preciso regular melhor esse mercado de comunicação.

Em um de seus trabalhos, o sociólogo Francisco Weffort argumenta que, quando a mídia vai além da emissão de opiniões e parte para a ação, ela se comporta tal como partido político, que possui ideias e atua para colocá-las em prática. Assim ele avalia que atuou a grande imprensa brasileira em 1964. Se já no dia a dia a mídia não emite mera opinião, mas juízos de valor, como fica para a democracia se um pequeno oligopólio de meios de comunicação resolve mesmo partir para a ação para depor um governo eleito? Obviamente, a mídia não é a única força em jogo, não se trata disso. Em 1964, o desfecho foi o golpe militar. Hoje, com instituições democráticas fortes, a opção do regime autoritário está descartada, mas a síntese entre autoritarismo sociopolítico, crise econômica, politização da ação técnica de alguns atores institucionais, em vários órgãos públicos, oportunismo parlamentar e estabilidade da democracia eleitoral pode ser, prevalecendo o interesse da coalizão liberal-conservadora, com a grande mídia à frente, o golpe branco. Que a democracia brasileira resista, dentro da lei, e não dê passagem a esse retrocesso vexaminoso! Que o Congresso Nacional não se deixe aventurar pelo caminho da irresponsabilidade! Que o STF garanta o respeito à Carta Magna! Que a sociedade brasileira enfrente o problema da estrutura concentrada da mídia, para garantir condições mínimas de igualdade democrática de produção e veiculação de informação e comunicação, dentro da ordem capitalista e com plena liberdade de imprensa, como já fizeram outros países sul-americanos e do norte desenvolvido!

* Marcus Ianoni é cientista político, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador das relações entre Política e Economia e Visiting Researcher Associate da Universidade de Oxford (Latin American Centre)  

Fonte: http://www.jb.com.br/