A Previdência e a verdade que se esconde dos brasileiros, por Mário Augusto Jakobskind

Enviado por Webster Franklin

Do Correio do Brasil

Por Mário Augusto Jakobskind
Há pelo menos duas décadas, quase diariamente, sucessivos governos federais e a mídia comercial têm denunciado uma suposta crise na Previdência Social. Os propulsores dessa tese advertem também que se nada for feito a Previdência vai quebrar. Jornais conservadores não fazem por menos e divulgam editoriais defendendo de todas as formas possíveis uma reforma que basicamente prejudicaria os assalariados.
Pois bem, a economista Denise Gentil, baseada em argumentos insofismáveis, acaba de apresentar tese de doutorado mostrando que a falência da Previdência Social tão alardeada é mentirosa e não resiste a análise mais aprofundada.
Falso déficit da Previdência
Denise Gentil prova por A mais B a existência de uma gigantesca farsa contábil transformando em déficit o superávit do sistema previdenciário, que atingiu a cifra de R$ 1,2 bilhões em 2006.
No aprofundado trabalho acadêmico da professora do Instituto de Economia da UFRJ fica demonstrado a cascata governamental com total apoio da mídia conservadora.
Omite-se o fato de que o superávit da Seguridade Social, abrangendo a Saúde, a Assistência Social e a Previdência, foi de 72,2 bilhões de reais
E o que aconteceu então? Segundo Denise Gentil, boa parte desse excedente vem sendo desviado para cobrir outras despesas, especialmente de ordem financeira.
Mas tal fato é omitido e os brasileiros recebem a mentira repetida inúmeras vezes com o objetivo de que vire uma verdade, seguindo velha técnica do chefe da propaganda do III Reich nazista, Joseph Goebbels.
“A falsa crise da Seguridade Social no Brasil: uma análise financeira do período de 1990 a 2005”, o título da tese de doutorado deveria ser apresentada como contraponto pela própria mídia conservadora, mas, claro, se ela fosse realmente imparcial como propaga. Mas não é, e por isso os leitores, ouvintes e telespectadores não têm acesso a esse tipo de reflexão.
Mas a edição do Jornal da UFRJ do último dia 11 de janeiro, a economista explica em detalhes a sua tese que contraria a “verdade” que vem sendo propagada há pelo menos duas décadas.
Numa longa entrevista concedida à  Coryntho Baldez, Denise Gentil assinala entre outras coisas que “a  ideia de falência dos sistemas previdenciários públicos e os ataques às instituições do estado de bem estar social tornaram-se dominantes em meados dos anos 1970 e foram reforçadas com a crise econômica dos anos 80 em que o pensamento liberal-conservador ganhou terreno no meio político e no meio acadêmico”.
Em sequência ela afirma que “a questão central para as sociedades ocidentais deixou de ser o desenvolvimento econômico e a distribuição da renda, proporcionados pela intervenção do Estado, para se converter no combate à inflação e na defesa da ampla soberania dos mercados e dos interesses individuais sobre os interesses coletivos. Um sistema de seguridade social que fosse universal, solidário e baseado em princípios redistributivistas conflitava com essa nova visão de mundo”.
“O principal argumento para modificar a arquitetura dos sistemas estatais de proteção social, construídos num período de crescimento do pós-guerra, foi o dos custos crescentes dos sistemas previdenciários, os quais decorreriam, principalmente, de uma dramática trajetória demográfica de envelhecimento da população”.
“A partir de então, um problema que é puramente de origem sócio econômica foi reduzido a um mero problema demográfico, diante do qual não há solução possível a não ser o corte de direitos, redução do valor dos benefícios e elevação de impostos. Essas ideias foram amplamente difundidas para a periferia do capitalismo e reformas privatizantes foram implantadas em vários países da América Latina”.
Fernando Henrique Cardoso que o diga, bem como seus seguidores nos mais diversos campos, um deles Armínio Fraga, consultor amplo e irrestrito do Senador Aécio Neves e muito ligado ao ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy,
Denise Gentil em essência defende a ideia segundo a qual o déficit previdenciário não está correto, porque não se baseia nos preceitos da Constituição Federal de 1988, que estabelece o arcabouço jurídico do sistema de Seguridade Social.
“O cálculo do resultado previdenciário leva em consideração apenas a receita de contribuição ao Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) que incide sobre a folha de pagamento, diminuindo dessa receita o valor dos benefícios pagos aos trabalhadores. O resultado dá em déficit. Essa, no entanto, é uma equação simplificadora da questão. Há outras fontes de receita da Previdência que não são computadas nesse cálculo, como a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira) e a receita de concursos de prognósticos. Isso está expressamente garantido no artigo 195 da Constituição e acintosamente não é levado em consideração”.
Foco de corrupção silenciado
Já que este espaço está dedicado a colocar em cheque um falso argumento que vem sendo apresentado para iludir os brasileiros, vale a pena também mencionar artigo do economista José Carlos de Assis mostrando o silêncio total e absoluto da mídia conservadora em relação a um grave foco de corrupção de responsabilidade do Banco Central. Segundo ele, no ano passado foram desviados para o setor financeiro algo em torno de 89 bilhões e 600 milhões de reais, quantia 40 vezes maior do que as fraudes cometidas por bandidos na Petrobras.
Esse desvio passou deliberadamente e ninguém reclamou. Até porque, claro, se o tema for aprofundado vai atingir também muitos setores que se apresentam diante da opinião pública como moralistas de plantão.
No Banco Central, ainda segundo Assis, rouba-se à vontade e longe de qualquer tipo de fiscalização da cidadania. E ainda por cima tudo sob a cobertura de “operações monetárias especiais só dominadas por ‘especialistas’”.
Em seu desabafo muito bem fundamentado, Assis assinala ainda que “generoso com os bandidos do setor financeiro, o Banco Central é excessivamente parcimonioso com os agentes produtivos da economia. Sobre estes recaem as taxas extorsivas de juros que em outros partes do mundo, se efetivadas, resultariam em cadeia”.
Por estas e ainda muitas outras, para se combater para valer a corrupção, não basta apenas espetáculos de pirotecnia como a Operação Lava Jato e outras do gênero. É preciso seguir informando questões como as denunciadas pelo economista José Carlos de Assis e a tese de Denise Gentile.
Lei dos meios de comunicação
E para finalizar, em matéria de silêncio da mídia conservadora vale informar que na Argentina uma juíza federal de San Martin e um juiz federal de Buenos Aires deixaram sem efeito os decretos do presidente argentino Maurício Macri relacionados com a revogação da lei dos meios de comunicação.
Os jornalões e telejornalões deram grande destaque ao que havia determinado Macri, mas ignoraram totalmente as decisões dos juízes mencionados que revogaram o decreto que interessava ao grupo Clarin.
Podem imaginar o motivo do silêncio desinformativo?A propósito de omissão e silêncio midiático, quando os jornalões e telejornalões vão aprofundar a questão dos 100 milhões de reais de propinas no governo FHC?
Mário Augusto Jakobskind, jornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV trasnmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Manual do perfeito midiota – Parte 4

Como se sabe, a condição de midiota assegura um “estar no mundo” menos sujeito a angústias, porque permite direcionar todas as culpas para o outro.

Do Brasileiros

Esta série de reflexões tem o propósito de tornar mais confortável a escolha que você, seguidor fiel e crente da mídia tradicional, fez durante o ano de 2015.

Como se sabe, a condição de midiota assegura um “estar no mundo” menos sujeito a angústias, porque permite direcionar todas as culpas para o outro, mesmo que identificado como uma entidade subjetiva, um partido ou a designação genérica de “os políticos”.

Portanto, é essencial que você conheça os riscos de deixar brotar sua consciência social, aquela que nasce da percepção da alteridade – “natureza ou condição do que é outro, distinto”.

Não vamos complicar as coisas lembrando o que disse Michel Foucault sobre esse “processo de subjetivação”, bem lembrado por Giorgio Agamben na sua conhecida obra Homo Sacer. Se você quiser arriscar uma olhadinha por trás dessa cortina, coloco um link no pé do texto e você vai direto à página 69.

Para resumir, o que se observa é que as classes médias urbanas, expostas à complexidade da vida contemporânea e pressionadas pela ideologia do consumo e do sucesso pessoal, tendem a emular os muito ricos, ou seja, a querer ser – por imitação – parte daqueles que compõem a elite.

A imprensa usa esse sentimento como plataforma para vender a ideia de que, para estar no topo da sociedade, você precisa se descolar dos outros, os “diferenciados” que ficam ao seu lado ou abaixo da sua faixa de renda.

É assim que a imprensa coopta os midiotas.

Para isso, trata de esconder alguns fatos.

Por exemplo, você viu na mídia hegemônica do Brasil, no Jornal Nacional, ou ouviu nos comentários do rádio, como os americanos muito ricos criaram um sistema para escapar do fisco e resguardar suas fortunas contra a crise que eles mesmos provocaram? Deixo também os links para duas reportagens especiais do New York Times sobre esse assunto.

Você também pode procurar os trabalhos da brasileira Grazielle David, especialista em orçamento público, que demonstra com números como os cidadãos mais ricos do Brasil sonegam anualmente mais de R$ 500 bilhões.

Você aderiu àquele abaixo-assinado que as mocinhas bonitinhas oferecem na frente da Fiesp, perto daquele pato inflado, contra a recriação da CPMF? Nunca se perguntou por que as entidades da indústria e do comércio, com ampla repercussão da mídia tradicional, vivem denunciando o aumento da carga tarifária e nunca – repito: NUNCA – se preocupam em contabilizar os bilhões sonegados?

Porque contam com a imprensa para convencer você a continuar pagando pelos realmente ricos.

Aí você passa a acreditar que o problema é que o governo gasta demais, principalmente com programas sociais – e vai para as ruas xingar e agredir quem, no fim das contas, defende os seus interesses.

Mas essa é a natureza do midiota: agir contra seus próprios interesses.

Está feliz assim? Então ignore estas provocações e que 2016 continue lhe proporcionando a cândida felicidade dos inocentes.

Para lerThe New York Times – 1 – e The NYTimes-2. Mais: Homo sacer.

Para verEvasão fiscal – vídeo.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://brasileiros.com.br/

Manual do perfeito midiota – 2

Não se esforce muito nos próximos dias: o PMDB está dividido, o vice-presidente Michel Temer se colocou numa situação institucionalmente insustentável e os apoiadores da atual presidente mostraram que uma eventual ruptura da ordem democrática não será recebida com flores ou balões de gás.

Por

Do Brasileiros

Nesta nossa série de serviço público, seguimos oferecendo subsídios para que você, cidadão ou cidadã sob a influência do ecossistema da mídia, possa desenvolver os recursos necessários para enfrentar a complexa diversidade do País onde vivemos.

Como você deve ter notado, nos últimos anos o grande conclave social do Brasil ganhou novas vozes, de pessoas que costumavam passar o dia na área de serviço, usavam elevadores lá no fundo do corredor e tinham o fabuloso poder de permanecer invisíveis quando você não precisava deles.

Esse fenômeno, que emancipou milhões desses indivíduos e até colocou seus filhos em faculdades, chama-se mobilidade social.

Não se preocupe: o Brasil nunca tinha visto isso acontecer; portanto, você não é um imbecil por ignorar sua existência.

Também não estamos aqui tratando da sua capacidade intelectual: nosso objetivo é cuidar para que você assegure sua condição de midiota, que oferece uma visão de mundo mais curta, radical, sem sutilezas e, portanto, menos sujeita a angústias.

Por exemplo: se você é do tipo que acredita que “o filho do Lula é dono da Friboi” ou que “Lula comprou a Rede Globo”, está no bom caminho – pois mesmo com as grandes exigências de compliance, entende que o filho do ex-presidente possa ter se tornado acionista majoritário de uma das maiores empresas do mundo sem que ninguém se desse conta. Se você não sabe, compliance é um sistema legal de controle empresarial que, entre outras coisas, impede a ocultação de capital. Serve, por exemplo, para prevenir conflitos de interesse e evitar que grupos terroristas ou criminosos se apossem de grandes recursos financeiros.

Não se preocupe: recentemente, uma senhora de minhas relações jurou que Lula é dono de metade do Brasil, inclusive de uma fazenda que pertence ao Instituto de Agronomia Luiz de Queiroz, e que obteve tudo isso com negócios “no fio do bigode”.

Ainda não descobri como se faz negócios assim e de que maneira alguém que não tenha bigodes poderia se incluir nesse tipo de capitalismo, por isso entendo de enquadrar essa senhora no grupo dos midiotas.

Você não precisa chegar a esse extremo para assegurar sua candura. Na semana que está terminando, você teve muitas oportunidades para alimentar a midiotice.

Analise, por exemplo, a pesquisa Datafolha publicada no domingo (13/12) e repetida por todos os meios da imprensa hegemônica. Dizia a manchete: “Após 13 anos de PT, 68% não veem melhora de vida”.

Se você, imprudentemente, seguiu lendo, ficou sabendo que nesse período, a renda dos mais pobres subiu 129% e os 10% mais ricos tiveram um acréscimo de 32% em seus ganhos. Mas não siga adiante: você vai concluir que a Folha distorceu sua própria pesquisa e mentiu descaradamente na manchete.

Você ainda pode dizer, em defesa de seu direito à midiotice, que a pesquisa fala de percepção, não dos números reais da mobilidade social ocorrida no Brasil, mas para isso você teria que admitir que houve esse resgate dos mais pobres. Melhor não.

O fato que os editores do jornal não podem omitir é que a percepção da realidade presente é sempre menos favorável do que a visão que se tem do passado, ou seja, a maioria das pessoas tende a achar que o presente é sempre pior. Isso não é novidade, e o diretor da Folha, sendo filósofo, deve conhecer o texto de Immanuel Kant (1724-1804) ao refletir sobre “A religião dentro dos limites da simples razão”: “que o mundo vai de mal a pior é uma queixa tão velha como a História, ou como a velha arte poética, tão velha quanto a mais velha entre todas as poesias, a religião dos sacerdotes”.

Os jornalistas desonestos sempre contarão com alguma razão na crítica do mundo, quando desejarem distorcer a percepção de uma circunstância política ou econômica, porque a tendência natural do ser humano é achar que o hoje é pior que o ontem.

Os jornalistas interessados em interpretar corretamente a realidade sabem que, numa circunstância adversa, ou seja, com o atual governo sob o bombardeio incessante da chamada mídia tradicional, um grande número de pessoas tende a dissimular eventuais opiniões favoráveis a ele. Por exemplo, boa parte dos 42% que declararam aos pesquisadores que a situação do Brasil continuou igual ao que era antes do governo Lula devem ser considerados mais próximos dos que acham que a situação melhorou do que daqueles 26% que consideram o contrário.

Portanto, o que a pesquisa mostra é que, mesmo sob o ataque constante e desonesto da imprensa hegemônica, o número de brasileiros que reconhecem a melhoria recente na qualidade de vida é muito maior do que os 26% que puxam a opinião pública para baixo.

Mas como nosso propósito aqui é garantir que você siga acreditando na mídia tradicional, fique com a manchete e ignore as malandragens dos editores.

Tentemos outro tema da semana: a condenação, em primeira instância, do ex-governador de Minas Eduardo Azeredo, apontado como o criador do esquema que ficou conhecido como “mensalão”. Você não estranhou o fato de que Azeredo não foi incomodado pela Polícia Federal e pode esperar o julgamento de recurso em liberdade, enquanto outros personagens seguem presos, mesmo sem condenação e que alguns deles são acusados apenas de “pensar em cometer crime de corrupção?”

Poderíamos também analisar o noticiário sobre o processo de impeachment da presidente da República e a ridícula tentativa da Polícia Militar de São Paulo de reduzir a 10% o total de pessoas que foram à manifestação contra a tentativa de golpe contra as urnas, mas isso pode fazer você pensar demais.

Não se esforce muito nos próximos dias: o PMDB está dividido, o vice-presidente Michel Temer se colocou numa situação institucionalmente insustentável e os apoiadores da atual presidente mostraram que uma eventual ruptura da ordem democrática não será recebida com flores ou balões de gás.

Nesse ínterim, recomendo a leitura intensiva da revista Veja. Ou a Época. Ouça a rádio Jovem Pan. Assista ao Jornal Nacional. Isso vai apaziguar seu espírito.

Não reflita muito sobre as contradições aqui apontadas, pois se sair por aí questionando a credibilidade da imprensa hegemônica, correrá o risco de se colocar acima das exigências para ser considerado um perfeito midiota.

Como é costume, vou colocar no pé do texto uma referência bibliográfica, mas fique advertido de que você pode sofrer efeitos colaterais com essa leitura. Trata-se de um livro intitulado “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich, escrito em 1946 e publicado em 1947. Fala de pessoas com o perfil do midiota, o homem e a mulher comuns, aqueles indivíduos que formam a massa descrita por Elias Canetti e que constituem o sonho de consumo de todo candidato a tirano.

Destaco alguns frases: “Zé Ninguém, tu estás sempre do lado dos opressores”. (…) “Tu não acreditas no progresso social”, (…) “mas sobre o que se escreve nos jornais tu acreditas, quer percebas, quer não”.

Esse tal de Reich conseguiu ser desprezado pela esquerda e amaldiçoado pela direita. Fugiu do nazismo na Alemanha e morreu numa prisão dos Estados Unidos. Portanto, era um homem perigosíssimo.

Então, cuidado ao ler esse texto. Você corre o risco de perder a condição de midiota e talvez venha a precisar de um programa tipo bolsa miséria intelectual.

Para ler: “Escuta, Zé Ninguém”, de Wilhelm Reich.

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://brasileiros.com.br/

Manual do perfeito midiota – Parte 1

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

O mundo de repente se tornou muito complexo? Não se preocupe: a maneira menos dolorosa de lidar com a complexidade da existência e com aquela angústia que ela provoca é assumir a condição de midiota. Portanto, é preciso verificar se você se classifica no rol dessas pessoas afortunadas para as quais o mundo é branco ou preto.

Seria maldade perguntar se você leu o livro originalmente intitulado “Being There”, publicado em 1970 pelo escritor Jerzy Kosinski. No ano seguinte, saiu uma edição brasileira que recebeu como título “O Videota”, o que facilita as coisas. Mas, para evitar o sacrifício de ter que ler um livro inteiro, informo que a versão cinematográfica pode ser baixada ou assistida online (dublada, para facilitar), no youtube ou vimeo.com. Busque pelo título: “Muito além do jardim”.

Em resumo, trata da história de um indivíduo maduro, órfão desde o nascimento, que passou a vida cuidando do jardim do homem que o acolheu. Nunca foi à escola, não aprendeu a ler ou escrever. Tudo que sabia era o que havia visto na televisão do seu quarto.

Um dia, o dono da casa morre e ele tem que sair para o mundo. O que se segue chama-se ironia: numa sociedade muito mais complexa do que o jardim que era seu universo, as opiniões simples e reducionistas que ele havia formado ao longo dessa existência alienada soam como explosões de sabedoria. Assim, ele vai subindo na escala social à base de metáforas absolutamente primárias sobre jardinagem e programas televisivos.

Alguma relação com as opiniões que você colhe na imprensa sobre política brasileira, economia e, principalmente, sobre corrupção?

Se a resposta for positiva, você tem grande chance de se identificar como um midiota. Aliás, no romance de Kosinski e no filme, o “videota” chama-se Chance, nome que em inglês, francês ou português pode ser traduzido como “oportunidade”.

Aqui está, portanto, sua chance de reduzir a angústia de viver numa sociedade onde a ascensão social de milhões de pessoas que viviam na pobreza produziu um alto grau de complexidade. Vamos combinar: a vida era muito mais simples quando a empregada usava o elevador de serviço, andava de ônibus, não precisava de férias e conhecia o seu lugar. E a gente nem precisava registrar o emprego dela. Quebrava um vaso, podia trocar o vaso e a empregada, sem maiores danos.

Também sabemos, você e eu, que esse negócio de preto, mulato, aquele povo do norte, fazendo compra no mesmo supermercado, comprando a mesma coisa que a gente, causa um certo desconforto. Esse mal-estar aumenta muito quando os encontramos na fila do aeroporto, ou a bordo daquele navio de cruzeiro, certo?

Tudo isso é causa de angústia e isso é compreensível: você não teve a chance de se preparar para essa mistura, porque passou a vida entre a mídia conservadora e o jardim do lar burguês.

A boa notícia é que você pode reduzir esse sofrimento simplesmente assumindo sua condição de midiota.

O diagnóstico é simples e pode ser feito por você mesmo. Por exemplo, você leu nos jornais que o desemprego de março superou o de fevereiro, e saiu por aí dizendo que o Brasil está à beira do abismo. Nem se pergunta quantos dias úteis tem fevereiro, se esse é um mês em que as pessoas esperam arrumar emprego etc.

Se você assumiu que o Brasil foi para a cucuia, parabéns: você é um midiota quase perfeito.

Mas se você tem um resquício de senso crítico e questiona se esse tipo de indicador é duvidoso, ainda pode comparar o desemprego do primeiro semestre deste ano com o do ano anterior. Pode chegar à mesma conclusão, ou seja, de que o Brasil foi pelo ralo.

No entanto, se passar pela sua cabeça que 2014 foi ano de Copa do Mundo e, portanto, muitos indicadores econômicos ficaram fora da curva, sinto muito: você está deixando o confortável mundo dos midiotas.

Veja bem: não se trata de ler ou não os jornais e as revistas semanais de informação que dominam o mercado, ou de assistir os telejornais todas as noites. Ser um midiota é uma questão de postura – você precisa receber esse noticiário pelo preço de face, ou seja, tem que absorver a mensagem sem aplicar sobre ela qualquer questionamento.

Não pode considerar, por exemplo, que um ano inteiro de noticiário negativo, apocalítico, acaba produzindo o que anuncia, porque afeta o ânimo de investidores, de empresários e dos trabalhadores.

Outra chance de fazer o diagnóstico: você vibrou com a manobra do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para levar a votação a proposta do impeachment da presidente da República? Não se importou com a hipótese de que o solerte parlamentar pudesse estar desviando sua atenção das acusações que pesam sobre ele?

Depois disso, você passou a achar que o vice-presidente Michel Temer é um homem de muitas luzes, porque quase oficializou o rompimento do PMDB com a aliança governista, testando a perspectiva do impeachment?

Se a resposta for positiva em ambos os casos, você está no caminho da libertação: mais um pouco e será dispensado de emitir opiniões inteligentes sobre qualquer coisa.

Mas, se passar pela sua cabeça que até o advogado que assina o pedido de impeachment sabe que dificilmente o Supremo Tribunal Federal iria concordar com a quebra da ordem constitucional se não houve – como não há – denúncia de crime administrativo contra a presidente da República, sinto muito: ainda falta um bocado para você se considerar um perfeito midiota.

Como se vê, o Brasil se tornou muito complexo.

Mas não perca a esperança: continue lendo diariamente os principais jornais do País, não se esqueça de olhar as manchetes nas bancas, e não deixe de assistir aos telejornais e aqueles comentaristas cheio de sabedoria sobre tudo.

Um dia você acorda transformado num enorme inseto, e não vai ter que se preocupar com mais nada.

Para ver: Muito além do jardim, dublado

*Jornalista, mestre em Comunicação, com formação em gestão de qualidade e liderança e especialização em sustentabilidade. Autor dos livros “O Mal-Estar na Globalização”,”Satie”, “As Razões do Lobo”, “Escrever com Criatividade”, “O Diabo na Mídia” e “Histórias sem Salvaguardas”

Fonte: http://jornalggn.com.br/

‘A Globo é o principal agente da imbecilização da sociedade’

A Rede Globo é o aparelho ideológico mais eficiente que as classes dominantes já construíram no Brasil desde o início do século XX.

Igor Fuser, Diário Liberdade (via Revista Fórum).

A Globo esteve ao lado de todos os governos de direita, desde o regime militar – no qual se transformou no gigante que é hoje – até Fernando Henrique Cardoso. Serviu caninamente à ditadura, demonizando as forças de esquerda e endossando o discurso ufanista do tipo “Brasil Ame-o ou Deixe-o” e as versões sabidamente falsas sobre a morte de combatentes da resistência assassinados na tortura e apresentados como caídos em tiroteios. Mais tarde, após o fim da ditadura, alinhou-se no apoio à implantação do neoliberalismo, apresentado como a única forma possível de organizar a economia e a sociedade.

No plano cultural, é impossível medir o imenso prejuízo causado pela Rede Globo, que opera como o principal agente da imbecilização da sociedade brasileira. Começando pelas novelas, seguindo pelos reality shows, pelos programas de auditório, o papel da Globo é sempre o de anestesiar as consciências, bloquear qualquer tipo de reflexão crítica.

A Globo impôs um português brasileiro “standard”, que anula o que as culturas regionais têm de mais importante – o sotaque local, a maneira específica de falar de cada região. Pratica ativamente o racismo, ao destinar aos personagens da raça negra papéis secundários e subalternos nas novelas em que os heróis e heroínas são sempre brancos. Os personagens brancos são os únicos que têm personalidade própria, psicologia complexa, os únicos capazes de despertar empatia dos telespectadores, enquanto os negros se limitam a funções de apoio. Aliás, são os únicos que aparecem em cena trabalhando, em qualquer novela, os únicos que se dedicam a labores manuais.

A postura racista da Globo não poupa nem sequer as crianças, induzidas, há várias gerações, a valorizar a pele branca e os cabelos loiros como o padrão superior de beleza, a partir de programas como o da Xuxa.

O jornalismo da Globo contraria os padrões básicos da ética, ao negar o direito ao contraditório. Só a versão ou ponto de vista do interesse da empresa é que é veiculado. Ocorre nos programas jornalísticos da Globo a manipulação constante dos fatos. As greves, por exemplo, são apresentadas sempre do ponto de vista dos patrões, ou seja, como transtorno ou bagunça, sem que os trabalhadores tenham direito à voz. Os movimentos sociais são caluniados e a violência policial raramente aparece. Ao contrário, procura-se sempre disseminar na sociedade um clima de medo, com uma abordagem exagerada e sensacionalista das questões de segurança pública, a fim de favorecer as falsas soluções de caráter violento e os atores políticos que as defendem.

No plano da política, a Rede Globo tem adotado perante os governos petistas uma conduta de sabotagem permanente, omitindo todos os fatos que possam apresentar uma visão positiva da administração federal, ao mesmo tempo em que as notícias de corrupção são apresentadas, muitas vezes sem a sustentação em provas e evidências, de forma escandalosa, em uma postura de constante denuncismo.

A Globo pratica o monopólio dos meios de comunicação, ao controlar simultaneamente as principais emissoras de TV e rádio em todos os Estados brasileiros juntamente com uma rede de jornais, revistas, emissoras de TV a cabo e portais na internet.

Uma verdadeira democratização das comunicações no Brasil passa, necessariamente, pela adoção de medidas contra a Rede Globo, para que o monopólio seja desmontado e que a sua programação tenha de se submeter a critérios pautados pela ética jornalística, pelo respeito aos direitos humanos e pelo interesse público.

*Igor Fuser é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC)

Fonte: http://www.cartamaior.com.br/

Por que as manifestações pró-impeachment fracassaram neste domingo?

Sem as presenças dos apoiadores do impeachment FHC, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, manifestantes deste domingo tiveram que se contentar com figuras como Lobão e Alexandre Frota. Foi o menor protesto contra Dilma Rousseff desde março. Em SP, carros de som ocuparam ilegalmente as ciclovias e foram multados

Um dos líderes do movimento Vem Pra Rua, Rogério Chequer disse à Agência Brasil que o fracasso de público na mobilização a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff neste domingo (13), na avenida Paulista, ocorreu pela falta de tempo para divulgação.

“Houve muito pouco tempo de divulgação. É normal que um movimento com menos tempo de divulgação tenha menos gente. Não nos surpreende”, disse.

O líder do Movimento Brasil Livre, Kim Kataguiri, também tentou justificar o público menor com o mesmo argumento: “A gente teve muito pouco tempo para divulgar e organizar essa manifestação”.

Marco Antonio Villa, comentarista da rádio Jovem Pan ligado ao PSDB, afirmou, ao contrário de Chequer e de Kim, que se surpreendeu com a baixa adesão aos protestos.

Contrariado pelo fracasso de público, Villa disse em vídeo divulgado nas redes sociais que o protesto foi um ‘esquenta’. “Eu esperava mais. Mas é uma manifestação por uma espécie de esquenta”, afirmou.

A PM informou que a manifestação reuniu 30 mil pessoas. Já segundo o Datafolha, o ato na Paulista reuniu 40.300. De qualquer modo, é o número mais baixo nas manifestações deste ano: em março foram 210 mil; em abril, 100 mil; e em agosto, 135 mil. Em relação à primeira manifestação, o público de ontem teve uma queda de 80% pelo menos.

Sem caciques

Fernando Henrique Cardoso, Aécio Neves e Geraldo Alckmin, caciques tucanos defensores do impeachment, mais uma vez não compareceram aos atos que pedem o impedimento de Dilma Rousseff.

Classe artística

Um dos únicos representantes da classe artística na marcha deste domingo, na Avenida Paulista, foi o ator Alexandre Frota, que disse representar a “classe artística de bem”. O músico Lobão também esteve presente e tirou algumas selfies com manifestantes.

Nas últimas semanas, manifestos que repudiam o pedido de impeachment liderado pelo PSDB e por Eduardo Cunha (PMDB-MG) foram rechaçados por artistas, intelectuais, professores, reitores de universidades, juristas e 16 governadores.

Alexandre Frota é um dos poucos aliados de Aécio e Cunha.

Mídia

O fracasso das manifestações deste dia 13/12 frustrou os grandes veículos de comunicação do Brasil.

Globo, Abril, Folha e Estadão haviam preparado suas equipes para uma cobertura especial. Frustraram-se por causa da baixa adesão popular.

Multas

Seis carros de som que foram estacionados na Avenida Paulista, região central de São Paulo, foram multados pelos agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) no domingo (13) por bloquearem a passagem de bicicletas na ciclovia.

“A CET tem um padrão, ou seja, os agentes de trânsito obedecem ao Código Nacional de Trânsito. Se você tem um local onde não é permitido veículo motorizado e o veículo está lá é um procedimento do próprio agente de tomar medidas”, afirmou o secretário municipal de Transportes Jilmar Tatto nesta segunda-feira (14).

Segundo Tatto, diferente do que os grupos que organizavam o ato informaram, os veículos não tinham autorização para estacionar sobre a ciclovia. A Avenida Paulista é aberta aos pedestres e ciclistas aos domingos e recebe milhares de pessoas. Os veículos são proibidos de circular pela via das 10h às 17h.

O ensaio

O jornalista Mauro Donato, do DCM, esteve na paulista neste domingo e escreveu um relato sobre o que viu. Leia trechos abaixo:

Dezenove pessoas (contei) prestavam atenção. Uma cartolina afixada na frente do caminhão de som informava que Olavo de Carvalho teria razão a partir das 13:00. Já eram 15:30 e me parecia que a racionalidade estava em outra galáxia.

Lobão fazia selfies. Uma ‘militar’ de uniforme camuflado e identificação Gracinha Felix marchava com ar obstinado. Um quinteto asmático ou afônico, não sei, batucava panelas. Cães de raça, caros, delicados e escovados, trajavam verde e amarelo.

Em algumas camisetas havia a estampa de uma mão espalmada sobre a inscrição ‘Basta’. Falta o dedo mindinho. É um basta Lula. A mão é preta. É um basta negros? Pode ser. Quase não se vê negros. A proporção reflete à perfeição a parcela da sociedade que está reunida ali.

Qual parcela?

Aquela que não quer ver a Paulista fechada para carros aos domingos mas se for para eles, tudo bem.

Aquela que não gosta de nenhum protesto que bloqueie o trânsito desde que não seja o protesto deles.

Aquela que tanto criticou o Passe Livre mas que hoje queria a catraca do metrô liberada. Aliás no metrô ela é facilmente identificável: Por mais perto que esteja da Paulista pergunta qual a direção a tomar, qual a estação a descer, não aguarda que as pessoas saiam do vagão antes de entrar, e (simbologia máxima) não respeita a esquerda livre na escada rolante.

Aquela parcela que berra ‘Chega de corrupção’ enquanto empunha bonecos pixulecos infláveis mas ali na avenida fomenta o comércio de produtos irregulares. Camisetas “Fora Dilma’, bandeiras, bugigangas. Perguntei ao vendedor: “Como está o movimento?” “Mais fraco que nas outras vezes” “Quem fornece essas camisetas para você, de quem você compra?”, ele desconfiado desconversa: “Ah, a gente compra aí, não sei quem faz não.” “Você tem nota fiscal se alguém te pedir?” “Ninguém pede.”

Chega de corrupção, não é mesmo? Incentivaram um comércio ilegal praticado por camelôs que se fosse em frente ao ponto comercial deles sabemos como reagem.

Que tipo de gente democrática é essa que acredita que pode tudo? Que só é permitido quando é a vez deles? Que só vale o que for para eles?

Foi a menor manifestação pró-impeachment do ano. Mas o que era de se esperar? Segundo eles mesmos, mais nada. Foram ‘pegos de surpresa’ (?!?!?!) então foi preciso organizar muito em cima da hora.

Todo caminhão de som procurava justificar a pouca presença de público: muito calor, ameaça de chuva, indiferença da imprensa, que deveria-se levar em conta que tratava-se só de um ‘esquenta’, uma preparação (isso é genial, como se manifestação fosse algum evento olímpico que necessita de ensaio).

Fonte: Pragmatismo Político

Como Dilma poderia fazer mais do que fez sendo sabotada desde antes de assumir o novo mandato? Por Paulo Nogueira

Dilma está sendo bombardeada muito além da conta.

Me chamou a atenção o número de artigos em que pessoas que condenam o impeachment fazem questão de dizer que Dilma vem fazendo um governo péssimo e é irremediavelmente incompetente.

Um momento.

Gostaria de saber quais as razões concretas por trás dessa avaliação.

Dilma, a rigor, fez um mandato. Se os brasileiros não aprovassem seu desempenho ela não teria sido eleita. Isto é fato.

Para colocar em contexto, ela venceu em circunstâncias extraordinariamente adversas, o que dá ainda maior legitimidade à vitória.

A imprensa fez tudo o que podia para sabotar sua candidatura. Aécio foi escandalosamente favorecido. A imprensa tratou-o como seu candidato.

Dilma foi, em todos os momentos da campanha, massacrada por jornais, revistas, telejornais. O caso da Petrobras veio para liquidá-la.

Aécio não foi associado sequer ao helicóptero cheio de cocaína de seu amigo do peito (e de clube) Perrela.

O favorecimento criminoso da mídia a Aécio, neste episódio, pode ser avaliado diante das obsessivas menções, agora, a um “amigo de Lula”.

Perrela, para a imprensa e só para ela, não era amigo de Aécio.

Sequer o aeroporto privado que Aécio construiu com dinheiro público numa cidade mineira foi objeto de questionamento da imprensa.

A Folha tocou no assunto, e logo caiu fora. Aparentemente, estava mais preocupada em fazer marketing – o do rabo que não está preso – do que jornalismo efetivamente.

E a Globo fez uma palhaçada. Depois de ignorar o assunto, Bonner, em sua entrevista com Aécio, interpelou-o duramente sobre o aeroporto. De novo: depois de esconder o aeroporto.

Aécio, se fosse mais esperto, poderia responder: “Ora, Bonner, se o assunto fosse importante, vocês teriam dado bem no Jornal Nacional.”

Seria um ippon.

Dilma viveu uma situação oposta. A obra magna da imprensa foi a capa da Veja na véspera da eleição.

Baseada numa mentira acintosa, a de que um delator teria dito que Dilma e Lula sabiam de tudo no Petrolão, a capa foi maciçamente usada como propaganda política antipetista no maior colégio eleitoral do país, São Paulo.

O gangsterismo da Veja se comprovaria, algum tempo depois, quando foi publicado o real conteúdo da delação. Em nenhum instante o delator disse o que a Veja disse que ele disse.

Pois bem.

Com tudo isso, e sem ser uma debatedora com os dotes de Lula, Dilma venceu.

O povo, portanto, a aprovou. Deu-lhe mais um mandato.

E o que veio depois?

Dilma nem assumira e se iniciou um descarado movimento para derrubá-la. A direita, sem pudor, repetiu o que fizera em 1954 e 1964: tentar tirar na marra um governante de caráter popular.

Governar um país é difícil. Quando este país tem uma estrutura secularmente voltada para preservar privilégios e mamatas de uma pequena elite predadora, é ainda mais complicado.

Agora: quando você é sabotado a cada minuto, é simplesmente impossível. E Dilma vem sendo sabotada em regime de 24 horas por 7 dias. Não há feriado, não há dia santo, não há sábado e não há domingo.

Se você olhar para trás, vai ver que até os números de votos foram postos em dúvida. Nem a direita venezuelana chegou a tal grau de abjeção.

Como, diante disso, avaliar Dilma? Quem faria melhor? Quem teria chance de fazer melhor?

Ninguém.

A “incompetência” é, ao lado da corrupção, uma antiga arma usada pelo plutocracia brasileira contra presidentes que ela não controla. Jango foi o tempo inteiro acusado de incompetente quando criavam contra ele dificuldades simplesmente intransponíveis.

É a mesma história com Dilma.

A direita inviabiliza qualquer chance de você governar e depois acusa você de inepto.

Não há limites para o descaramento. Aécio, para defender o impeachment, disse nestes dias que a instabilidade é enorme no Brasil.

Ora, a instabilidade tem um nome: Aécio. Desde o primeiro dia ele se dedica a conspirar contra 54 milhões de votos.

O mandato de Dilma é de quatro anos. E no entanto desde a primeira semana cobravam dela como se fosse a última.

É golpe, é uma tentativa intolerável de destruir a democracia, falar em qualquer coisa que desconsidere que Dilma foi eleita para governar até 2018.

O momento de julgá-la – nas urnas – foi no final de 2014.

Querer tirá-la no poder agora, e com os argumentos desumanamente falaciosos que estão sendo utilizados, é um crime de lesa pátria e lesa democracia.

Sobre o Autor

O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.

Fonte: DCM