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Quando a imprensa promove o linchamento, segundo Miruna Genoíno

Livro lançado pela filha de José Genoíno detalha a violência e julgamento sumário da imprensa.

Jornal GGN – “Ter vivido aqueles dias de julgamento televisionado, detalhado e comentado a cada segundo por uma mídia cada vez mais sangrenta e parcial foi uma vivência que não desejo a ninguém, nem aos meus inimigos. Cheguei um dia a me perguntar se aqueles jornalistas, ou melhor, seus chefes, eram capazes de imaginar o que estavam fazendo (…) Eu via cada manchete, cada frase maldosa, sem entender como podiam fazer isso com uma pessoa tão honesta e não sentir um mínimo de remorso”, esse é um trecho do livro Felicidade Fechada, publicado por Miruna, filha de José Genoíno.

O lançamento foi realizado no espaço Barão de Itararé, e contou com a presença do jornalista Paulo Moreira Leite, e da cientista política e também jornalista, Maria Inês Nassif, na mesa de debates.

O fundador do PT foi condenado sem provas, em 2012, pelo Supremo Tribunal Federal, na Ação Penal 470, o mensalão. Os ministros que decidiram pela sua condenação adotaram a “teoria do domínio de fato”, mecanismo inédito e bastante censurado por juristas, incluindo até mesmo nomes críticos ao Partido dos Trabalhadores, como Ives Gandra Martins. Em março de 2015, o Supremo decidiu extinguir a pena de José Genoíno, por unanimidade, com base no indulto natalino decretado pela presidente Dilma Rousseff.

A obra de Miruna, publicada pela Editora Cosmos, reúne as cartas da família, remontando as angústias enfrentadas por eles, tanto em decorrência da prisão de Genoíno quanto pelo linchamento midiático. Sim, linchamento, palavra definida pelos dicionários Aurélio e Michaelis como “justiçar sumariamente ou sem julgamento, punir usando grande violência, justiça sumária feita por uma multidão a um criminoso”.

Como pedagoga e especializada em educação infantil, Miruna tem procurado transmitir desde cedo para seus alunos que há sempre uma decisão por trás da escolha de cada palavra escrita, questionando o posicionamento dos principais meios de comunicação que nunca deram espaço equivalente para a defesa de Genoíno nas reportagens:

“A gente vive um momento em que se utiliza muito o argumento da liberdade de imprensa, com pessoas dizendo que só transmitiram na escrita o que aconteceu, como se a palavra não pudesse ter escolhas”, rebate.

Maria Inês Nassif analisa que o linchamento “faz parte da estratégia de negação da política”, para derrubada de governos.

“Você tem que destruir a reputações para conseguir destruir a força política e a corrupção é um apelo, principalmente, às classes médias que, ironicamente, ascenderam em governos populares”. Inês acrescenta que os militares usaram a mesma estratégia pouco antes e durante a ditadura de 1964 e, atualmente, setores políticos e do judiciário usam mecanismos semelhantes àqueles utilizados durante o estado de exceção:

“[O que a justiça de Curitiba faz] nada mais é do que um inquérito policial militar, não diferindo em nada daqueles aplicados na ditadura. O problema é que, em um país verdadeiramente democrático, se a mídia destrói uma reputação, você confia que, lá na frente, o judiciário vai dar o atestado de idoneidade para a pessoa vitimada pelo linchamento midiático”, completando que, no caso brasileiro, onde até mesmo o Judiciário está comprometido com a estratégia política, dificilmente uma pessoa condenada injustamente terá chances de ser reabilitada.

Já Paulo Moreira Leita alerta que a condenação arbitrária é um indício de que a democracia corre riscos:

“Toda a vez que um estado de exceção avança, que ele procura se consolidar, ele atinge a dignidade humana, fere os direitos humanos, prende sem motivo, condena de maneira arbitrária. É assim que funciona. É por isso que a questão humana – apresentada no livro de Miruna – é importante”.

A importância das redes sociais

Quando perguntada se, com a publicação de Felicidade Fechada, a história de Genoíno terminava bem, Miruna respondeu que as experiências negativas jamais serão apagadas, incluindo os traumas que ficaram na família, atingindo seus filhos pequenos que foram expostos ao holofote das câmeras.

“O que passamos, passamos, porém, saímos fortalecidos e, de alguma maneira, encontramos formas de sobreviver a esse linchamento midiático”, recorda.

Ela dividiu o período de angústia em duas fases, a primeira, e mais difícil, foi quando ocorreu a denúncia do suposto envolvimento de Genoíno com o esquema de corrupção.

“Levamos um susto muito grande pelo volume que a acusação tomou e também porque a gente se viu muito sozinho, amigos se afastaram e pessoas desconfiaram, efetivamente, de que ele era inocente”, lembrando que, naquele momento, a força das redes sociais e da mídia alternativa era praticamente inexistente.

“O único canal que eu usei foi o e-mail, um dos poucos textos que fiz e que ficou conhecido foi o ‘Suco de Limão e queijadinha’, que está no livro e que eu enviei para poucos amigos da faculdade, para a família, para as tias, as primas, e lia algumas vezes em encontros do PT”.

A segunda fase mais difícil foi quando ocorreu a condenação, porém, naquele momento, as redes sociais e a mídia alternativa já estavam mais consolidados.

“A gente continuou sofrendo linchamento, mas a gente conseguiu se fortalecer tendo outros espaços que iam abrindo caminhos para a gente poder recontar e trazer a nossa história”, completa.

Um dos maiores símbolos do fortalecimento do apoio que a família recebeu foi quando o Supremo, além da condenação, estabeleceu uma multa de R$ 700 mil.

“A gente não sabia o que fazer para arcar com esse valor. Ali eu tomei a frente e tive que organizar aquela campanha de arrecadação, sozinha, recebendo críticas inclusive de gente da mídia alternativa, com medo que desse errado, e a resposta foi muito impressionante. A gente recebia mensagens de pessoas que foram em casas lotéricas depositar dez reais, quinze reais”.

A mídia como assassina de reputação

Miruna acrescenta que, desde a primeira denúncia, a mídia condenou José Genoíno e, junto, a sua família, que também foi atropelada no processo de exposição excessiva e com pouquíssimo espaço para a defesa do político.

Outro ponto bastante explorado pela pedagoga no livro foi o acampamento de jornalistas na porta de casa, enquanto aguardavam a prisão de Genoíno, chegando, inclusive, a invadir a garagem do sobrado de classe média, no bairro Butantã, em São Paulo.

“Independentemente da pessoa diretamente envolvida a gente não pode esquecer da família dela e do espaço de cada um. Mesmo hoje em dia a gente tem que tomar cuidado quando fazemos também um ato, por exemplo, na casa do atual presidente [Temer], porque independentemente do que eu penso dele, ele tem sua trajetória e a casa dele é a casa dele. A gente tem que fazer um exercício de separar as escolhas políticas de cada um do seu espaço privado”.

Maria Inês Nassif completa que o livro de Miruna, além de comovente, tem um papel importante para mostrar o estrago do linchamento político da vida das pessoas, relembrando situações de repercussão nacional, como a Escola Base e a do ministro Alcemir Gerra, do governo Collor.

“Gerra comprou briga com a Fundação Nacional de Saúde, que todo mundo sabia que era um antro de bandidos, e acabou sendo denunciado por um crime que, posteriormente, a justiça considerou que ele não cometeu. Ele foi inocentado”.

Moreia Leite, por sua vez, destaca que o papel de Felicidade Fechada está em mostrar o lado humano de figuras públicas que sofreram linchamento:

“Existe um lado da personalidade política que não se cobre, e que certamente é o lado que atinge o cidadão comum, que mostra a dignidade de uma pessoa. Lendo o livro da Miruna, ela conta a vida de Genoíno, que andava 14 quilômetros todo o dia para ir para a escola. Estamos falando de um sujeito que foi para a guerra do Araguaia, lutar e arriscar a vida”.

Miruna explica para o GGN porque discorda de protestos realizados em frente a casa de Temer:

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