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Lula e o Brasil: cenários do pós julgamento

No Brasil, o anteparo que mais perturba a compreensão dos fatos políticos é o descompasso extraordinário entre a realidade empírica e a narrativa noticiosa da imprensa secular. São divorciados no papel e no religioso

A confirmação da condenação de Lula pelo TRF-4 foi uma espécie de spoiler judicial: todos já sabiam e mesmo assim todos ficaram chocados. Não admira que uma emissora de televisão tenha antecipado o resultado da votação em algumas horas. A tabelinha entre o Judiciário e a imprensa no Brasil remonta aos velhos tempos de Pelé e Coutinho no Santos: enquanto um enfiava a bola, o outro já ia fazendo a resenha. Bons tempos do glorioso futebol sul-americano.

O tecido democrático brasileiro parece sofrer um ataque massivo de traças. Traças vorazes que passaram bons anos em incubação. A fome é tal que já não resta muito para consumir. Falta a previdência social e empresas públicas, trançados suculentos de puro algodão. As traças salivam de ansiedade.

Todo esse banquete não se completa nem se significa sem a simbologia do julgamento de Lula. O julgamento de Lula foi a senha para todos os movimentos que se assanham e se precipitam nesta puída e desbotada democracia.

A confirmação da condenação de Lula, ocorrida no último dia 24 de janeiro, portanto, reorganiza o campo eleitoral, pelo menos em tese. Ela era essencial para o segmento que alçou o poder via impeachment, fenômeno mais conhecido aqui no Brasil como “golpe”. É uma condenação que não comporta apenas uma leitura. Tal como a conjuntura política do Brasil, ela é complexa, ostenta cifras heterogêneas e desdobramentos difusos, no limite do imponderável.

 

A ruptura democrática e a morte do prognóstico

Uma das consequências que essa ruptura democrática trouxe ao Brasil, dentre tantas, foi a morte do prognóstico. É como se todo o regime de previsões reservados à esfera política fosse agora realizado por economistas, tal é a impossibilidade de acerto. Prever equivocadamente, no entanto, é uma arte e, tal como uma arte, enseja ponderações narrativas e fáticas.

Poder-se-ia dizer: de todo o acúmulo de prognósticos mais ou menos factíveis, outros cenários podem ser desenhados. A rigor, a previsão e o cenário vão do delirante e paranoico ao fleumático e conservador. A linha tênue que os separa é mais que tênue, é turva.

 

Descompassos narrativos e redes sociais

No Brasil, o anteparo que mais perturba a compreensão dos fatos políticos é o descompasso extraordinário entre a realidade empírica e a narrativa noticiosa da imprensa secular. São divorciados no papel e no religioso.

Decorre dessa separação o estado permanente de tensão social e de perturbação digital que grassa no território brasileiro. As redes sociais no Brasil não correspondem às redes sociais norte-americanas, europeias ou árabes. Aqui, há muito mais coisas entre o céu e a terra digitais do que pode imaginar a nossa vã e obsoleta filosofia comportamental do século XX.

O usuário de rede brasileiro gosta do tumulto, como sói significar no poema “Nosso Tempo” de Carlos Drummond de Andrade: “meu nome é tumulto”. E é um tumulto até certo ponto identificável e solidário às redes “estrangeiras”, nas suas ânsias de compartilhamentos e desovas de fakenews. Mas, é também muito mais do que isso.

No Brasil, a rede social – e isso é assaz relevante para se compreender o cenário que o julgamento de Lula impõe na conjuntura política brasileira – é a argamassa que edifica os muros e portais da compreensão pública. Ela medeia, sintoniza, codifica, filtra, legitima e dá qualquer consistência ao debate residual que nos permite ainda enunciar e tentar explicar o porquê de tanta convulsão institucional e arbítrio jurisdicional.

O pouco-muito – sic – que se enuncia via mídias sociais é o oráculo para se entender qual seja a reorganização política que vai, aos poucos, se desenhando no Brasil contemporâneo.

A rigor, a comprovação dessa tese é muito singela e, no fundo, quase simplória: as pesquisas de opinião realizadas pelos institutos de pesquisa alinhados com as mídias tradicionais corroboram não a leitura destas mesmas mídias tradicionais, mas, justamente, a leitura que emerge das mídias sociais, indomesticáveis e indóceis ao princípio do discurso único e homogeneizante.

Quis o destino que se configurasse aqui uma legião de espaços digitais formulados por jornalistas egressos – traumaticamente egressos – das mídias tradicionais, o que resultou numa dicção extremamente mais crítica e ácida se contraposta à narrativa bem comportada e oficiosa – e lenta e velha – da imprensa clássica.

Essa química que subjaz ao regime das informações e do debate acaba por caracterizar um volume de massa de textos sem precedentes. Isso amplia o escopo das múltiplas compreensões que costuram a leitura da realidade factual. Note-se que essa produção vertiginosa de textos tem qualidade e incomoda bastante a parceria sólida e duradoura entre a imprensa mainstream e governos de perfil neoliberal.

 

trending topics discusivo

O exato dia do julgamento de Lula, por exemplo, materializou talvez a maior massa de textos já produzida num só dia na internet brasileira. Foi uma vertigem. Milhares de juristas, ativistas, políticos, cidadãos, jornalistas, sociólogos, bloggers, youtubers, editores, filósofos e intelectuais de toda cepa, escreveram até estalar as mais inflamadas tendinites. O país foi ao limite de glosas e leituras, inclusive na dimensão offline dos taxistas, úberes e frequentadores de bares.

Fosse possível medir o fluxo de textos, talvez o dia 24 de janeiro de 2018 tenha sido o trending topics mundial sócio-digital sobre um mesmo determinado assunto: Lula. A reboque, todas as emissoras de TV, todas as emissoras de rádio, todos os jornais familiares, todos os sites e blogs, toda a atividade cognitiva urbana que não se encontrava fatidicamente ocupada com alguma outra ação intelectual que exigisse 100% da atenção – como controladores de voo, por exemplo.

O que dizer de um julgamento como esse, que paralisou o país até seu debute e que o paralisa mais ainda após seu término?

 

Os pólos políticos e o embate difuso

Como dito no início deste artigo, o julgamento foi um “spoiler judicial”. Todos sabíamos que o resultado seria aquele. Não obstante, esse traço farseco não retira o impacto violento de seu day after. Sigo, primeiramente, por um caminho retórico cheio de sutilezas e pressupostos pouco óbvios. Como diria a fala proverbial dos matutos antepassados: enquanto alguns levam a farinha, outros já voltam com o bolo. Ou: é preciso ter em mente e considerar cenários que se encontram interditados pelo clima de terra arrasada que paira tanto sobre um polo político quanto sobre outro.

Definamos esses polos: de um lado, há o polo democrático, que se esforça para garantir o nome de Lula na cédula eleitoral e que deseja ser avaliado pelo conjunto da opinião pública brasileira, enxergando nisso sua força e sua legitimidade.

De outro lado, temos o polo antidemocrático, que ascendeu ao poder graças a um impeachment, impeachment este considerado pela maioria dos juristas seniores brasileiros e internacionais como um acinte à Constituição e aos direitos democráticos, direitos de uma presidenta legitimamente eleita em uma disputada eleição e de toda uma população que depositou naquele sufrágio o documento que garantiria a sequência de mais quatro anos de um projeto político.

Esse polo amarga praticamente 100% de rejeição da população brasileira, neste preciso momento. Sua força inconteste, no entanto, reside na domesticação e no adestramento do poder judiciário, notadamente no Superior Tribunal Federal, e no poder legislativo, comprometido até o pescoço com denúncias gravíssimas não só de corrupção, mas de crimes hediondos e imprescritíveis – a configuração exótica deste legislativo brasileiro é um capítulo à parte que tomaria o espaço de um outro artigo de opinião.

Esses dois polos que, a rigor, vinham ditando a alternância de poder no cenário brasileiro, nada mais são do que a clássica polarização política países democráticos afora: direita e esquerda, com suaves modificações aqui e ali.

 

Desbobramentos do impeachment

Depois do impeachment, ao contrário do que rezava o desejo de muitos segmentos fragmentários e dispersos do empresariado brasileiro, o polo mais à esquerda se fortaleceu de maneira acelerada e consistente, conforme o derretimento espúrio dos projetos sociais e estruturais do país ia se aprofundando, com uma agenda institucional completamente desconectada da realidade tanto geopolítica quanto econômica e de demanda interna.

Nesse ínterim, a criminalização da esquerda por parte do judiciário e da imprensa partidarizada se acentuou. Note-se que foi uma campanha também visível de várias partes do mundo. É desse conjunto de situações jornalísticas e judiciais que foi caracterizado no Brasil talvez o maior caso já registrado no mundo de lawfare, o uso dos meios de comunicação para criminalizar um e apenas um segmento político e forçar sua execração e proscrição do debate público e dos direitos civis e políticos.

Esse é, por assim dizer, o beabá da conjuntura sociopolítica brasileira atual. É a partir desse substrato que se torna possível antecipar alguns cenários para as consequências da confirmação da condenação de Lula no Tribunal Regional Federal da 4ª Região.

 

A inteligência de Lula e seu adversário quimérico

Ao ponto: os interesses e vantagens que se intercruzam nesse pós-julgamento são muito mais estruturais que autorais. O cenário brasileiro é tão confuso que há uma deriva deliberada nos dois polos que se embatem neste momento crítico pré-eleição. Ambos não estão das respectivas posses de seus sentidos políticos e históricos, por mais invulgar que isso possa parecer.

A figura de “terra arrasada”, portanto, não é só conjuntural e “cognitiva”. Ela invadiu o espaço intersubjetivo das ações individuais dos grandes atores políticos. A única personalidade que parece se destacar dessa inanição fática é exatamente ele, Lula.

No entanto, ele é também tragado pelo volume inédito de sentidos destroçados do palco político. Mesmo Lula tem o seu limite de ação perturbado, o limite que ele acostumou a ultrapassar pautando desde sempre o debate público brasileiro à sua maneira e dentro de um leque de opções ideológicas relativamente dóceis a ele e, digamos, “sob controle”. A inteligência de Lula é, a rigor, o grande diferencial histórico da política brasileira.

Ocorre que até essa inteligência muito acima da média encontrou um adversário finalmente à altura: uma superestrutura que, do alto de sua ausência de face identificável, vai conduzindo as ações e os acontecimentos de maneira regular e com rotinas – essas sim – possíveis de serem identificadas.

Para resumir o argumento: Lula não tem adversário à altura. Seu adversário de turno é a deriva natural das forças antagônicas, organizada e materializada nos interstícios do judiciário, da imprensa, do executivo, do empresariado e do ódio que foi insuflado na classe média via reportagens obsessivas de uma emissora de televisão, mais poderosa que financeiramente saudável.

Como nos quadrinhos de super-heróis, o vilão que desponta de uma malsucedida experiência química, elétrica ou genética, é potencializado com um imenso e incalculável sentimento de frustração e ódio libidinal, ganhando dimensão e poderes aquém das possibilidades de qualquer humano, mesmo de um humano com “poderes” especiais.

 

Cenários eleitorais

É relativamente simples constatar isso. Basta ficar diante das pesquisas de opinião que aferem intenções de votos. Os adversários de Lula, ali, apresentam performances risíveis. Não é à toa que a palavra usada pela própria imprensa interessada para designar potenciais adversários de Lula é “tubo de ensaio”. São experimentos eleitorais que vão se acumulando, numa verdadeira loteria, para se testar a possibilidade de realização de uma espécie de recall do impeachment. E é curioso ver como todos sucumbem nos traços de intenção de voto aferidos pelas pesquisas de opinião.

O único signo político que ameaça a soberania insuportável desse metalúrgico-político, verdadeira personagem gestada no mundo dos quadrinhos, é o maior quadro reacionário de que já se teve notícia no país. Um cidadão que atende pelo nome de Jair Bolsonaro, deputado pelo Rio de Janeiro e já salpicado, polvilhado e flambado de acusações devastadoras de corrupção, devidamente encampadas e subscritas pelo outrora maior jornal do país, a célebre Folha de S.Paulo.

O consórcio do golpe, como carinhosamente algumas mídias alternativas chamam esse polo mais à direita, assustou-se gravemente com a ascensão de um político que é praticamente um fascista. Enquanto ele atrapalhava o campo progressista, tudo estava bem. Mas, a partir do momento em que ele cresceu demais, o sinal vermelho acendeu para os interesses neoliberais que, apesar de tudo, gostam de manter as aparências. Bolsonaro já foi devidamente queimado pela mídia extensiva ao impeachment.

De modo que, no horizonte de Lula, no que diz respeito aos contentores eleitorais, os cadáveres se acumulam. Eis a dificuldade de lidar com uma força política dessa dimensão sem algum tipo de provedor político de conteúdo – a direita brasileira simplesmente se nega a formular teses sobre o país e passa a maior parte do tempo de sua existência apenas negando as teses da esquerda.

 

O princípio da incerteza política brasileira

O adversário que restou, portanto, foi a grande estrutura, aquela que não responde, que não atende por nenhum nome e que não pode ser responsabilizada por seus atos. Ela simplesmente “é”. Ela é, por assim dizer, uma das faces do “mercado”. Aliás, esse pode ser um de seus vários nomes.

Esse adversário conta com uma estratégia muito eficiente que vai se consolidando como a estratégia vencedora do atual certame histórico-político: o princípio da incerteza política. O princípio da incerteza política leva em conta dois processos que o retroalimentam: um, a suspensão permanente do estado democrático e, dois, a consolidação dessa suspensão através da interdição do debate público com vistas ao desenlace e à síntese. Trata-se do célebre “diálogo de surdos”.

A esquerda brasileira, por sua vez, aceitou esse pacote discursivo. Ela tem recebido de bom grado a tarefa de falar para o infinito. Demonstra, inclusive orgulho em “não dialogar” com “fascistas”. Nesse sentido, pode-se dizer: é tênue a linha que demarca o que poderia ser uma afirmação retórica daquilo que apenas cai no vazio do esquecimento.

Ao aceitar esse sistema de incomunicabilidade, a esquerda vai mordendo a isca dessa superestrutura (que, aqui nesta reflexão, não quer fazer senão apenas uma delicada homenagem ao marxismo; seu sentido é outro, é aquele que o presente texto fornece). Vai costurando, assim, em conjunto com a direita, o tecido da suspensão perene da democracia.

 

O debate interditado

De fato, talvez interesse a ambas esse estado de suspensão. O impeachment teve uma dimensão tão traumática que parece não haver mais o que se fazer para recuperar a delicada máquina computacional danificada. São muitos malwares e trojans no sistema para que apenas reprograme-se-o. Seria preciso “voltar no tempo”, dar início à restauração do sistema, para que o “computador-país” volte a operar com suas funcionalidades plenas.

Para demonstrar isso de maneira mais explícita, recorro aos fatos. Lula condenado vai insistir na candidatura. A opção de renunciar a ela não é cogitada nem por ele nem por nenhum dirigente de seu partido. A razão disso, aparentemente, é a sobrevivência: mesmo no campo da incerteza, uma candidatura Lula tem imenso peso simbólico e eleitoral. Vai eleger consigo muitos deputados, governadores e senadores. É uma estratégia, no entanto, de risco, porque o cargo de presidente da república confere muito poder ao signatário e permite orientar pletoras de políticas indutoras país continental afora.

É por isso que Lula construiu algo absolutamente impensável e sem precedentes no mundo em 8 anos de governo. Nem a China e seus números populacionais astronômicos tirou 40 milhões de pessoas da pobreza em período tão curto de tempo, com todas as revoluções que lhe são familiares. O governo Lula foi um nó em todas as compreensões econômicas, sociais e gerenciais já realizadas até então. É um “case” perigosíssimo para o establishment, algo que empareda e encurrala o pensamento liberal facilitado dos bancos e dos grandes conglomerados financeiros de matrizes seculares.

 

Destruição em massa

Da mesma forma, a degradação social viabilizada por Michel Temer é algo também sem precedentes. Em apenas dois anos, pouco restou de todo o cinturão de proteção social e econômica realizado pelo PT e até pelo PSDB, do longínquo decênio dos anos 1990.

Hoje, no Brasil, há massacres diários no pior sistema carcerário do mundo – sob as vistas grossas da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia; há genocídios de índios (comunidades inteiras vem sendo dizimadas por madeireiros e garimpeiros), de negros e de homossexuais; há uma explosão de violência de toda a sorte, sobretudo a violência contra a mulher, rastro simbólico da misoginia e do gaslighting sofrido pela presidenta Dilma Rousseff, hostilizada diariamente pela imprensa brasileira; enfim, há uma devastação social de parâmetros ainda desconhecidos.

No intermezzo deste verdadeiro holocausto – não temo pesar a palavra: trata-se exatamente disto –, Lula vai resistindo e buscando restituir alguma cifra de debate público com suas caravanas pelo Brasil e com seus atos pela democracia. Ele é a única instância que desafia essa lógica de “nuvem de gafanhotos”.

Lula é essa esfinge. Por isso, não é trivial contestar suas razões de se perpetuar no princípio da incerteza. Enquanto todos estão à deriva, Lula opera com precisão cirúrgica, opaca aos singelos mortais. Enquanto todos se afogam, Lula nada. Enquanto escrevo este artigo, Lula vai modificando cenários e vai impondo mais dificuldades à superestrutura.

 

A incomunicabilidade

Essa incomunicabilidade política, no entanto, não é só política: é jornalística. Ambas as esferas se entrecruzam e produzem gatilhos poderosos de reiteração das interdições. É como se fosse um colapso dos enunciados, uma entropia do discurso. Lances retóricos já não fazem mais o efeito desejado, dicções vão se autoconsumindo, tons se descalibram no mesmo instante em que são forjados.

Tome-se a declaração do senador Lindbergh Farias, do PT. Ele diz que “mesmo preso, Lula será candidato”. O que um enunciado desses pode querer dizer? É curioso, porque ao mesmo tempo em que as instituições brasileiras caíram em um limbo de descrédito generalizado, a matriz de sentido dos enunciados políticos se desorganizou de maneira violenta.

Voltando ao enunciado do senador: qual seria sua codificação histórica? A de que o enfrentamento está decidido. Só que há uma outra dimensão no regime das interpretações. Tal dizer pode passar por puro delírio, uma vez que uma pessoa presa não pode se candidatar, jurídica e constitucionalmente falando.

Essa ambiguidade é um dos motores do que nomeio como “princípio da incerteza política brasileira”. São enunciados que circulam mídias sociais e portais institucionais afora e vão trilhando percepções semanticamente interrompidas por onde passam.

 

Migração de votos

Do ponto de vista prático, a incerteza e a incomunicabilidade são altamente eficientes para o consórcio do golpe. Porque eles não lidam com nomes, eles lidam com “prepostos”. À exceção do reacionário Bolsonaro e dos quadros periféricos da esquerda brasileira, qualquer candidato a presidente que não seja Lula, serve. Isso confere larga elasticidade conjuntural a esse polo político, porque não há espaços para personalismos – daí sua mediação evidente através da superestrutura política que se apoderou da condução do discurso anti-Lula.

Muito mais do que tudo isso, há uma imensa felicidade nos calabouços jurídicos em poder contar com a incerteza política. Porque, mesmo se Lula conseguir garantir na justiça sua candidatura, essa mesma justiça – no momento, completamente partidarizada – poderá subtrair essa legitimidade a qualquer instante.

Chega a ser até mais confortável que Lula sangre, ao invés de se tornar proscrito em definitivo. Porque sua eliminação do processo, como protagonista eleitoral e cabeça de chapa, desencadearia imediatamente uma migração monumental de votos para um candidato escolhido por ele.

A direita sofre tanta rejeição popular neste momento no Brasil, que qualquer candidato minimamente palatável à esquerda estaria virtualmente eleito neste fatídico ano de 2018.

 

O colapso dos sentidos

É daqui que decorre senões com relação à atuação tática de Lula. Porque sua retirada estratégica e definitiva – e magnânima – causaria tamanho reboliço em todo o cenário político que “zeraria” o processo eleitoral, encaminhando-o para o imponderável, mas com imensa vantagem para o campo progressista, uma vez que o movimento da peça de xadrez teria autoria e contexto (não seria decorrente do judiciário ou dos linchamentos da imprensa).

As contingências políticas se aceleram no Brasil. Muitos irão capitular no meio do caminho como sói acontecer em processos violentos de disputa eleitoral. A história tem sido, inclusive, muito invocada neste embate fratricida entre o novo e o velho, ambos mascarados com as boas e velhas máscaras do carnaval brasileiro. É o colapso dos sentidos: o novo é o velho e o velho é o novo – há até um partido político com nome de “Novo” que aglutina as forças mais velhas e retrógradas da cena política brasileira.

Um marqueteiro político neste cenário ou seria de uma inutilidade atroz – ou sofreria uma síncope nervosa. A hora é para protagonistas e cérebros conectados com os desdobramentos políticos que se desenrolam mundo afora, com as redes sociais e mídias alternativas e com as teorias contemporâneas de linguagem. O tamanho do desafio brasileiro requer um aparato igualmente monumental de restauração e de recuperação do tecido social e democrático.

 

Cenários possíveis

Note-se e sublinhe-se mais alguns dados interessantes que latejam na combalida realidade narrativa deste outrora apenas exótico país: numa pesquisa recente, o cenário simulado sem a presença de Lula colocou, nada mais nada menos, do que Dilma Rousseff, a presidente que sofreu o impeachment, com 13% das intenções de voto, figurando assim no segundo lugar nas pesquisas.

O processo do impeachment brasileiro foi tão estranho – para não dizer, fraudulento –, que Rousseff foi retirada do cargo porque cometeu crimes de responsabilidade, mas não foi condenada, preservando, assim, seus plenos direitos políticos. Poucas farsas superam esse tipo de lógica.

Isso demonstra que o cenário neste pós julgamento de Lula ainda é favorável para este e para a esquerda. Isso coloca também mais um desafio à superestrutura: será mesmo prudente manter a realização das eleições majoritárias de 2018? Essa pergunta corre nos piores círculos de Brasília neste exato momento. É trending topics congressual.

 

O embate final

Lula já demonstrou que vai para o embate. Sua prisão é desejada por gente poderosa. O julgamento voltou a assanhar e a despertar o ódio de classe que já estava seguindo seu curso de arrefecimento. Agora, para a emissora de televisão Rede Globo – mais um nome da superestrutura – é mister que essa prisão ocorra com algemas e muita pirotecnia. Há muito ódio envolvido na relação entre Lula e Globo, ainda que este seja unidirecional – uma vez que Lula apenas despreza o canal de televisão.

O prognóstico arriscado para esse momento do Brasil é: a direita quer muito se manter no poder do qual soube tão bem se apropriar. E ela está com todas as cartas na manga – aliás, é só o que ela tem, uma vez que a expertise para formar uma quadra ou mesmo para blefar não lhe cai como uma possibilidade.

A esquerda treme. Erra, grita, sangra e articula nos limites de seu sofrimento não assumido. Como diz Lula, o país ficou muito tempo anestesiado e só agora acorda da anestesia. Mas, como sabemos, a anestesia vai perdendo seu efeito aos poucos, não de uma vez.

O embate é épico. É a inteligência de Lula versus a onipresença da superestrutura política devidamente instalada no poder. É um duelo de gigantes. De um lado, todo o poder judiciário, toda a imprensa corporativa, todo o empresariado, todo o volume de recursos das máquinas públicas à mercê do partido antagonista, todo ódio de classe e todo poder de uma emissora de televisão que detém 80% do bolo total de publicidade do país. Do outro lado, Lula.

 

A narrativa internacional sobre o Brasil

É tentador dizer que o Brasil está fechado para balanço. Um balanço arbitrário e antidemocrático, sem dúvida. Muito se prognostica, muito se prevê, muito se pondera. Mas, muito, igualmente, ignora-se o povo. Não creio que seja mais o caso. O povo brasileiro é heterogêneo e está, neste momento, construindo uma resposta a tudo isso – aliás, como sempre fez.

Destaque-se o papel importante da imprensa internacional nesse momento difícil do Brasil. Na falta de uma imprensa doméstica que cubra os acontecimentos e fatos com imparcialdade e objetividade jornalísticas, a imprensa internacional tem oferecido resenhas e leituras cruciais e de excelente qualidade para que o debate em torno de um país tão relevante no cenário mundial não seja fulanizado pelos interesses provincianos de mídias familiares e diretamente interessadas.

Esse processo da intercolaboração jornalística internacional tem agora que se aprofundar. O Brasil inspirou muita gente mundo afora durante muito tempo. Agora, é a hora de o mundo inspirar um pouco o Brasil. Ele está precisando.

 

*Gustavo Conde é músico, linguista e professor.

Imagem por Juliano Rocha

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