EUA: Sete anos de charlatanismo monetário; quando vamos admitir nossos erros?

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Os investidores mais ricos dos EUA apostam trilhões de dólares baseados na crença de que a economia americana permanecerá fragilizada nos próximos anos.

Mike Whitney – CounterPunch

Os investidores mais ricos dos EUA estão apostando trilhões de dólares baseados na crença de que a economia americana permanecerá fragilizada pelos próximos anos.

Quem são esses investidores ricos?

São bondholders. E sua visão sobre o estado da economia é refletida nos títulos de rendimento de longo prazo da Reserva Federal dos EUA. Atualmente, os rendimentos da dívida de longo prazo rendem muito pouco, o que significa que os investidores creem que a economia seguirá registrando um desempenho insatisfatório enquanto a inflação permanecerá sob controle.

Esta perspectiva pessimista não é novidade para os bondholders, de fato, os rendimentos se mantiveram teimosamente baixos desde o início da crise financeira em 2008, o que significa que os investidores não foram convencidos pelos pretensos “sinais de recuperação econômica”. Eles sabiam que aquilo era bobagem e sua opinião não mudou. Não há nenhum sinal de recuperação em qualquer lugar, exceto pelos números da falsa folha de pagamento do governo, que não condizem com qualquer um dos demais dados. Por qualquer medida lógica, a economia está presa em uma queda de longo prazo que parece não mostrar sinais de melhora em um futuro próximo. Os Bondholders parecem entender esse fato e fazem uma tonelada de apostas no baixo crescimento e na estagnação perene, que é o corolário lógico das políticas monetárias da Reserva Federal. (Stephen Roach explica os baixos rendimentos sobre os títulos da dívida americana dos últimos 30 anos).

Quase invariavelmente, rendimentos de títulos são muito mais úteis na previsão do futuro do que os especialistas do canal de negócios. Os rendimentos – que são a quantidade de retorno que os bondholders recebem ao emprestar seu dinheiro pro governo –  revelam a expectativa dos investidores sobre a inflação e sobre as atividades econômicas futuras. Eles são um barômetro para medir a saúde da economia. Se o crescimento é forte e o futuro parece fecundo, os rendimentos tendem a aumentar à medida que a demanda por dinheiro aumenta e as perspectivas de uma inflação elevada parecem mais prováveis. Mas se os investidores esperam por uma pequena taxa de crescimento, então os rendimentos tendem a cair, refletindo mais baixas expectativas quanto a atividade econômica futura. O fato de que os rendimentos dos títulos da dívida de menos de 30 anos estejam abaixo de 3% nesse momento sugere que os dirigentes políticos não entendem como funciona a economia ou simplesmente se recusam a engendrar as mudanças que podem estimular o crescimento. Em ambos os casos, isso apenas demonstra o papel do Banco Central enquanto administrador desse sistema contraditório.

No dia 26 de janeiro (2016), o rendimento de referência para títulos de 10 anos do Tesouro era de apenas 1,98%. Isso significa que os investidores obterão $1,98 dólares anualmente (durante dez anos) para cada $100 dolares investidos, o que é quase nada. Pense nisso desta maneira: Digamos que seu amigo João quer pegar $5.000 emprestado para abrir uma sorveteria. Então você se pergunta o quanto precisa cobrá-lo acima do preço do empréstimo para ser justamente recompensado pelo risco que está correndo (já que o João teve algumas ideias ruins no passado). Se você decidir cobrá-lo em 2% ao ano, então você por pouco não recuperará seu empréstimo, já que a inflação se apresenta atualmente em cerca de 1,5%. Então, você precisa cobrar pelo menos acima de 2% ou sairá perdendo.

A situação é essa: quando você empresta seu dinheiro pro governo dos EUA por um reles 1,98% ao ano, você lucra apenas marginalmente com o processo. O único lado positivo é que você pode estar razoavelmente seguro de que o governo vai pagar de volta, ao contrário de João.

O enfoque sobre as taxas de juros como único meio para fixar a economia deveria ter sido superado a essas alturas; mas não foi, é claro, porque o grande capital que governa esse país aprecia as coisas como estão. Baixas taxas de juros e dinheiro fácil significam maiores lucros para Wall Street, independentemente do seu impacto sobre a economia real. O que mais importa para os bondholders não é o crescimento ou a inflação, mas o jogo político. Isso é o que mantém o influxo de caixa: a política. E enquanto eles estiverem confiantes de que a política “acomodada” do Tesouro vai acompanhar um rígido ajuste fiscal (que tem sido adotado por ambos Democratas e Republicanos), então eles podem ter a certeza de que a economia seguirá insatisfatória e os papéis da dívida seguirão como um bom negócio.

Mas as desleixadas políticas monetárias da Reserva vêm a um custo alto. E esse custo é pago tanto pelas empresas quanto pelos trabalhadores. Segue trecho de um artigo no WSJ sobre os efeitos prejudiciais das baixas taxas de juros sobre o investimento de capital, escrito por Michael Spence e Kevin Warsh. O título do artigo adianta a discussão – “A Reserva continua prejudicando o investimento empresarial”:

“Essa política monetária extremamente cômoda, que inclui a compra de cerca de $3 trilhões em títulos do Tesouro e em títulos lastreados em hipotecas durante três rodadas de flexibilização quantitativa [QE], desvalorizou os rendimentos de longo prazo e impulsionou o valor dos ativos de risco. Preços das ações mais elevados deveriam elevar a confiança das empresas e proporcionar maiores investimentos de capital, que, por sua vez, deveriam resultar em salários mais elevados e em forte consumo. Se ao menos fosse assim…

O investimento das empresas na economia real é fraco. (…) Em 2014, pela primeira vez desde 2007, as empresas do S&P 500 gastaram muito mais do seu fluxo de caixa operacional em recompra de engenharia financeira do que nas despesas de capital real. (…)Acreditamos que a flexibilização quantitativa redirecionou o capital da economia interna real para ativos financeiros no país e no exterior. Neste ambiente, é difícil criticar as empresas que favorecem que os acionistas recomprem ações ao invés de investir em uma nova fábrica. Mas a política pública não deveria estimular investimentos sobre ativos de papel no lugar de investimentos sobre a economia real”.

Esta é uma queixa bastante comum, de que as políticas da Reserva tem elevado os preços dos ativos, mas prejudicado o investimento empresarial, que exige uma forte demanda por seus produtos. O fato é que as empresas não podem crescer, a menos que as pessoas estejam empregadas, os salários estejam subindo e o dinheiro esteja circulando. Nada disso está acontecendo atualmente. Na verdade, de acordo com a Reserva de Atlanta, é esperado que o PIB do quarto trimestre suba menos de 1% (0,06%), o que significa que a economia dos EUA provavelmente precisa alcançar o necrotério para que o processo de embalsamamento comece. Para todos os efeitos práticos, a economia está destruída.

Claro que o presidente Obama rejeita esse tipo de negatividade pura e simples. No Discurso sobre o Estado da União em janeiro, Obama acenou dizendo que “qualquer um que afirme que a economia dos EUA está em declínio vende, na verdade, uma ficção”

Ficção?! Não de acordo com o economista James Hamilton. Eis o que ele disse esta semana no site da Oil Price:

“A economia mundial está entrando em recessão. As evidências aparecem de todas as formas: desaceleração do crescimento da produção, queda nos PMI’s, alargamento dos spreads de crédito, queda dos lucros das empresas, a queda das expectativas de inflação, redução de investimento de capital e aumento dos estoques. Mas esta é uma recessão incomum – pela primeira vez derivada da queda nos preços do petróleo”. [Could Low Oil Prices Cause A Global Recession?, Oil Price]

Além disso, o Wall Street Journal afirma que:

“Todas as recessões nos EUA desde a 2ª Guerra Mundial foram precedidas por quedas acentuadas na produção industrial, nos lucros das empresas e no mercado de ações. A produção industrial caiu em 10 dos últimos 12 meses, e agora está aquém por quase 2% do seu pico em dezembro de 2014. Os lucros das empresas atingiram seu pico no verão de 2014 e estavam aquém por cerca de 5% no terceiro trimestre do ano passado. O índice Dow Jones caiu em 7,6% até agora neste ano.

(…)Ao contrário dos declínios passados na produção industrial, o declínio de hoje tem sido impulsionado principalmente pelo colapso da indústria do petróleo. (…) A produção mineira caiu em mais de 10%, impulsionada por uma queda de 62% na perfuração de petróleo e de gás.

(…)”A produção aponta ciclos econômicos e tende a ser um indicador das oscilações”, disse Thomas Costerg, economista sênior do Standard Chartered. [Recession Warnings May Not Come to Pass, Wall Street Journal]

A verdade é que a economia ainda está muito fragilizada e os embrolhos monetários da Reserva não produziram a expansão de crédito esperada. A concessão de reservas excedentes aos bancos deveria impulsionar empréstimos que, por sua vez, levariam a um crescimento acentuado, mas não foi isso que aconteceu, principalmente porque os consumidores não estão pegando emprestado como faziam antes da crise. Em vez disso, eles estão tentando pagar as suas dívidas. Dê uma olhada no gráfico de empréstimos bancários (aqui).

Poucos empréstimos bancários significam poucas pessoas pegando emprestado. Poucas pessoas pegando emprestado significa que não há expansão do crédito. Pouca expansão do crédito significa pouca atividade econômica nova, sem novos gastos, nenhuma nova contratação, nenhum novo investimento empresarial, nenhum crescimento forte. O economista-chefe do Nomura, Richard Koo, resumiu sucintamente dizendo que “quando ninguém pega dinheiro emprestado, a política monetária tende a ser em grande parte inútil.”

Bingo. É inútil. Sabemos isso agora. Nem a flexibilização quantitativa, nem redução das taxas de juros promovem o crescimento. O ‘Grande Experimento’ falhou, Keynes estava certo e (Milton) Friedman estava errado. Aqui está Keynes:

“Por minha parte, sou um pouco cético em relação ao sucesso de uma política meramente monetária orientada para influenciar a taxa de juros. O Estado está em condições de calcular a eficiência marginal dos bens de capital a longo prazo, sobre a base da vantagem social. Espero vê-lo tendo mais uma vez a responsabilidade de organizar diretamente os investimentos; já que parece provável que as flutuações na estimativa da eficiência marginal de diferentes tipos de capital, calculados sobre os princípios que descrevi acima do mercado, serão grande demais para ser compensados por quaisquer alterações possíveis na taxa de juros. [João Maynard Keynes, A Teoria Geral do Emprego, do Juros e da Moeda, marxists.org, 2002]

Keynes está apenas afirmando o óbvio, que você não pode tirar a economia de uma recessão severa apenas mexendo com as taxas de juros ou alimentando reservas bancárias. Não funciona. É necessário o bom e velho estímulo fiscal sobre economia, por meio de programas de infra-estrutura federais ambiciosos que estimulem a atividade, promovam emprego e mantenham a economia em movimento para a frente até os balanços do setor privado sejam reparados e os gastos pessoais retornem ao normal.

A Reserva desperdiçou os últimos sete anos tentando reinventar a roda, enquanto a solução sempre esteve na sua cara. Será que estamos realmente indo para o necrotério? Será que vamos tentar implementar a mesma estratégia que já falhou por mais 7 anos?

tradução por Allan Brum

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About Author

Estudou Geografia na UCSAL, Agente Político, militante do PCdoB, sindicalista e ex-secretário Municipal de Esporte e Lazer de Camaçari - Bahia. Conselheiro da Cidade do Saber e Assessor do Executivo Municipal. Filho de Camaçari, apaixonado pela minha cidade! "De bem com a VIDA"

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